Três óperas: Camargo Guarnieri, Golijov, Villani-Côrtes

Três óperas: Camargo Guarnieri, Golijov, Villani-Côrtes

João Luiz Sampaio

04 Maio 2015 | 17h36

Os palcos de São Paulo abrigaram nas últimas semanas montagens de três óperas escritas nas últimas seis décadas. No Teatro Municipal, foram apresentadas, em dobradinha, Um Homem Só, de Camargo Guarnieri, e Ainadamar, de Osvaldo Golijov; e, no Teatro São Pedro, a Poranduba, de Edmundo Villani-Côrtes. São três óperas distintas em suas propostas, mas que se aproximam na busca – ou no olhar que oferecem – de um caminho para a ópera em nosso tempo.

O barítono Rodrigo Esteves em cena da produção de

O barítono Rodrigo Esteves em cena da produção de “Um Homem Só”

Um Homem Só/Ainadamar

Escrita a partir de texto do ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, Um Homem Só é uma reflexão a respeito de solidão e ilusões perdidas em meio à paisagem urbana dos difíceis anos 1960. “José sofre. Muito sofre. Sofre muito. Como sofre”, diz o coro que introduz a história. E por que José sofre? A distância da mulher e do filho é um tema recorrente, mas parece menos importante do que uma sensação geral de desencanto e inadequação – reforçada de modo hábil pela galeria de personagens que, em ritmo quase vertiginoso, cruza o caminho do protagonista, a quem empurram cada vez mais em direção a si mesmo. José, afinal, dialoga apenas com a sua própria condição e quando se atira em direção ao mundo é apenas para reforçá-la. A música de Guarnieri extrai sua riqueza desta mesma dualidade: a variação estilística, aberta a elementos da tradição brasileira, leva a uma sucessão de caracterizações musicais pontuais, assim como vão e vem os personagens: mas o discurso musical, acima de tudo, é construído a partir da tensão, de um clima de incerteza e indefinição. Desta forma, é a ligação, em um nível muito íntimo, entre texto e músico que pauta a ação – ou a falta dela. E, consequentemente, dá sentido ao discurso teatral.

Um Homem Só foi escrita no início dos anos 1960. Já Ainadamar, apresentada em seguida, remonta ao começo dos anos 2000, momento em que o compositor argentino Osvaldo Golijov foi “descoberto” pelo establishment musical norte-americano. A ópera narra a história da morte de Federico Garcia Lorca, por meio das memórias da cantora e atriz Margarita Xirgu. O conflito, ou seja, o teatro, está no pano de fundo: a oposição entre o mundo poético do autor (recriado tanto no coro quanto nas árias do poeta e nos duetos) e a crueldade do fascismo, do qual o exemplo mais claro parece ser a escrita rude e monolítica de Ruiz Alonso que, a todo instante, pede a prisão e a morte de Lorca. A caracterização musical dos personagens sugere aspectos interessantes, mas eles perdem força perante a falta de uma dramaturgia consistente e a superficialidade com que os temas são tratados. Assim, Ainadamar não é nem uma obra política, pelo modo raso como toca nessa questão, nem uma investigação poética a respeito da relação do homem e do artista com o seu meio, retratada apenas pelo exagero e o melodrama.

Cena de

Cena de “Ainadamar”

Apesar dos pontos de contato entre as duas óperas – o principal deles talvez a solidão do homem perante o mundo em que vive –, Um Homem Só e Ainadamar sugerem universos visuais distintos. O diretor Caetano Vilela sabe disso e recusa qualquer aproximação forçada. Trabalha, ao contrário, ao lado do cenógrafo Nicolas Bòni, na construção de mundos cênicos fascinantes e bastante particulares. Na obra de Guarnieri, Vilela evoca a São Paulo dos anos 60 e, com isso, evidencia o que, em sua opinião, o texto tem de datado, ao mesmo tempo em que comenta suas questões à luz da contemporaneidade. Já em Ainadamar, Lorca e o fascimo, poesia e força, se traduzem nos textos que decoram as paredes monolíticas que circundam o palco de Margarita Xirgu – um palco simples, reduzido, afinal é feito acima de tudo de lembrança, daquilo que é efêmero e ainda assim reivindica permanência. O virtuosismo com que o diretor trabalha as trocas de cena e a movimentação dos atores e do coro, cuja função é apresentar e comentar a ação nas duas óperas, além da amplitude de referências com as quais trabalha, são a confirmaçào do vigor e originalidade com que Vilela tem colaborado com a cena lírica brasileira.

Da mesma forma, é preciso destacar a atuação da Orquestra Sinfônica Municipal e do Coral Lírico Municipal que, sob regência de Rodolfo Fischer, souberam, em especial, adaptar-se às exigências de partituras tão distintas. E a atuação dos principais protagonistas, com destaque para o José do barítono Rodrigo Esteves, o Médico/Sorveteiro/Cobrador de Miguel Geraldi, a Margarita Xirgu de Marisu Pavón e a Nuria de Camila Titinger, apenas alguns destaques de bons elencos.

O barítono Leonardo Neiva como Poranduba

O barítono Leonardo Neiva como Poranduba

Poranduba

Edmundo Villani-Cortes, ao aceitar o convite da libretista Lucia Pimentel Góes para escrever uma ópera a partir de lendas amazônicas, conta que não quis pensar em um espetáculo de pequenas proporções, que talvez fosse montado com mais facilidade. Pelo contrário, optou por trabalhar com algumas das principais formas e possibilidades do gênero, desde um grande time de solistas até a presença de um balé, passando por um amplo uso de corais adultos e infantis. A diversidade, no entanto, não se limita ao aspecto formal. A escrita de Villani, fincada na vocação neotonal, flerta com universos dos mais distintos. Evoca, no primeiro ato, a tradição do bel canto; no segundo, vai do lirismo da cena de Iacy (a mezzo Elaine Martorano, que substituiu Aline Lobão) à dramaticidade da ária de Ceucy (interpretada de forma soberba por Gabriella Pace), passando pelo tom heroico com que Jurupari (o tenor Eric Herrero) narra sua história; e, no terceiro, flerta com a modinha no dueto entre Pai e Mãe, interpretados com delicadeza por Eduardo Amir e Céline Imbert. Em todos esses momentos, chama atenção a habilidade com que Villani-Cortes domina a escrita vocal – e o modo como a regência de André dos Santos é capaz de investir, musicalmente, em propostas tão diferentes. Mas a fraca dramaturgia criada por Lucia Góes, em certos momentos de tom até pueril, não evita que, no final, o espetáculo – conduzido pela narração do Poranduba do excelente barítono Leonardo Neiva – seja pouco mais do que um punhado de quadros estanques, de inspiração irregular.

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A ópera em nossos dias é um tema complexo, em especial pelo peso da tradição, do qual parece ser difícil nos libertarmos. Nesse universo, ainda há mais perguntas do que respostas. E não há problema que seja assim – contanto que os teatros continuem com a prática de abrir espaço em suas temporadas para novas criações ou, como é o caso de Um Homem Só e tantos outros titulos, obras escritas nos últimos 50, 60 anos e ainda desconhecidas. Óperas assim são um desafio para maestros, cantores, diretores, críticos, públicos. E, por isso mesmo, fascinantes.