Três sopranos no mundo dos esportes

João Luiz Sampaio

24 de fevereiro de 2014 | 14h12

A arena esportiva foi invadida pela ópera nos últimos dois meses. Renée Fleming cantou o Hino Nacional norte-americano na final do Super Bowl, em Nova Jersey, em janeiro; Anna Netrebko participou da abertura das Olimpíadas de Inverno de Sochi, na Rússia – e, no encerramento da competição, ontem, a coreana Sumi Jo cantou na parte da cerimônia dedicada à próxima cidade sede dos jogos, Pyeongchang. Ontem, aliás, outra soprano russa também deu às caras: Hibla Gerzmava.

Talvez por conta disso tudo, um abaixo-assinado virtual foi organizado aqui no Brasil no início de fevereiro, pedindo ao ministro dos Esportes Aldo Rebello que a soprano paraense Carmen Monarcha cante na abertura ou no encerramento da Copa do Mundo (até hoje, são 660 assinaturas). Monarcha tem feito boa carreira no Brasil, em palcos como o Teatro Amazonas e a Sala São Paulo, mas a fama vem de outro lugar: faz parte da trupe do violinista e rei do crossover André Rieu.

Não é de hoje que cantores de óperas emprestam suas vozes a eventos distantes do palco – em especial no que diz respeito à política. Marian Anderson, a primeira soprano afro-americana a se apresentar no Metropolitan Opera House, de Nova York, cantou em abril de 1939, em frente ao Lincoln Memorial, em Washington; Jessye Norman cantou na cerimônia realizada após os ataques de 11 de setembro em Nova York e na posse do presidente Barack Obama. A própria Fleming já participou de cerimônia de entrega do Prêmio Nobel. E, no mundo dos esportes, vale lembrar não apenas a reunião dos Trës Tenores, iniciada na Copa de 1990, como também os Jogos Olímpicos de 1992, que contaram com a presença no estádio de José Carreras, Plácido Domingo, Giacomo Aragall, Montserrat Caballé e outros cantores espanhóis.

Nas recentes aparições, a questão política nem sempre foi confortável. Em especial no caso da soprano russa Anna Netrebko. Ela, assim como o maestro Valery Gergiev, é muito próxima do presidente Vladimir Putin. E, desde que o governo russo resolveu apoiar leis contra o homossexualismo, a cantora tem sido cobrada mundo afora por uma postura com relação à medida – para se ter uma ideia, em outubro, quando ela abriu a temporada do Metropolitan de Nova York, o teatro viu-se obrigado a emitir nota esclarecendo que acreditava na igualdade e na tolerância, mas que não emitiria nenhuma opinião direta sobre o tema.

A polêmica mais absurda, no entanto, nasceu no próprio meio musical. Nas redes sociais e em blogs, muitos criticaram a participação de Renée Fleming na cerimônia do SuperBowl. A fauna de argumentos foi curiosa. Alguns diziam que uma soprano com uma carreira como a dela não poderia se baixar ao nível de uma apresentação esportiva e profanar o alto templo da música lírica; para outros, as condições acústicas não favoráveis de um estádio esportivo passaram uma ideia errada a respeito do que é uma voz de soprano – e, assim, a apresentação teria prestado um desserviço à ópera, até porque, parece que ela errou uma nota (?!).

A maior parte da reações, no entanto, foi positiva. E são prova do impacto que a voz, o canto e a música provocam nas pessoas, não importa o contexto da apresentação. Renée Fleming cantar no Super Bowl leva um novo público para a ópera? Torna o gênero mais popular? Talvez não seja o caso de voltar a essas perguntas mas, simplesmente, de aceitar que cantores líricos e o gênero que representam podem fazer parte do tecido cultural de uma nação – e que o quanto mais natural for esse diáolgo, melhor e mais autêntico ele será. Não se trata, claro, de diminuir a importância da discussão em tono da popularização da ópera – mas é preciso ter cuidado, nesse processo, para não transformar o canto lírico em uma ave rara, que paira acima e distante de todos.

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