Três razões para ver “Falstaff” no cinema

Três razões para ver “Falstaff” no cinema

João Luiz Sampaio

13 de dezembro de 2013 | 14h35

Hoje vou ao São Pedro assistir à produção de “Falstaff” que encerra a temporada deste ano do teatro. Tenho ouvido coisas boas de colegas que já assistiram a montagem. Comento aqui depois o que achei, assim como ainda vou escrever sobre a “Bohème” que assisti ontem no Municipal.

Mas estou chegando de férias e, de viagem pelos Estados Unidos, acompanhei a estreia de Falstaff no Metropolitan Opera de Nova York. E, como se trata da produção que será apresentada ao vivo nos cinemas brasileiros amanhã (veja a programação de salas e horários), passo os comentários sobre ela na frente das montagens brasileiras.

Uma produção de ópera é sempre um empreendimento conjunto, no qual é fundamental o diálogo entre diversos elementos. Ainda assim, pensando sobre a apresentação, identifiquei três elementos que fazem dessa montagem um programa imperdível.

A regência de James Levine
O maestro voltou este ano ao pódio do teatro do qual é diretor há quatro décadas, após duas temporadas em que um problema na coluna o impediu de reger. “Falstaff” é um Verdi especial. Gary Wills, no livro “Verdi’s Shakespeare”, estuda a correspondência trocada entre o compositor e o libretista Arrigo Boito e chega à conclusão de que a paisagem musical de Falstaff trata de três aspectos fundamentais: no tratamento do personagem título, há uma certa monumentalidade decadente e irônica; na tropa feminina, um tom ligeiro e frenético; e, entre esses dois elementos, a cegueira e a raiva de Ford e companhia. Eu acrescentaria um quarto elemento: a delicadeza com que é tratado o amor entre Fenton e Nanetta. Mas o que me parece particularmente especial, no entanto, é o modo como Verdi transita, na partitura, de um ambiente a outro –eles se somam, misturam, rechaçam, formando um rico mosaico de sensações que, no final das contas, é o da experiência humana. Pois bem, a regência de Levine se encaixa nas frestas deste mosaico, em uma interpretação que é feita de novos olhares e que aspira certa completude ao mesmo tempo em que é fiel a cada um dos momentos musicais da escrita verdiana.

O Falstaff de Ambrogio Maestri
O barítono é hoje o grande intérprete do papel de Falstaff – e a sua presença cênica, o timbre rico em coloridos e o conhecimento do texto e de suas possibilidades expressivas revelam o por quê. Ele monopoliza a atenção sempre que está em cena. Há apenas um momento em que tem ao seu lado uma intérprete à sua altura: a meio-soprano Stephanie Blythe, que interpreta Mrs. Quickly. São dois gigantes em cena, em um daqueles momentos inesquecíveis de teatro cômico e desempenho vocal. Em tempo: Maestri vai interpretar o papel em São Paulo em 2014.

A produção de Robert Carsen
O diretor leva a ação para a Inglaterra dos anos 50. Mas isso é o que menos importa, ainda que a realização de cenários e figurinos seja excepcional. O que chama mais atenção é a inventividade de movimentação cênica e a fluência teatral, que demonstra um respeito grande ao texto e ao que a partitura tem de mais especial.

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