Três duetos

João Luiz Sampaio

29 de setembro de 2009 | 18h28

Chamem de fetiche, tara, obsessão… mas quem me conhece bem sabe da minha relação com o Don Carlo, de Verdi. Não vou dizer que é a minha ópera preferida, porque tem um ou outro título do Wagner – e, vá lá, do próprio Verdi – que pode ficar com ciúmes. Mas as gravações do Don Carlo vão sendo empilhadas em casa e o monte não para de crescer. A última é uma gravada no Scala, com Gabriele Santini à frente de um belo elenco: Stella, Cossotto, Bastianini, Christoff, Vinco e Flaviano Labò, no papel-título – e omais fraquinho do elenco. Estava ouvindo agora trechos da gravação para uma matéria e não deixo de me surpreender. A ópera é teatro do início ao fim, com Verdi se libertando cada vez mais das amarras da tradição e buscando uma linguagem nova para a ópera. E aqui também ele consegue unir de maneira espetacular dois dos elementos fundamentais da temática de sua obra – o drama interno das personagens e o pano de fundo político e social em que vivem. A figura do monarca que reconhece a própria decadência e fragilidade é fascinante – e o dueto com o grande Inquisidor ainda é uma das mais contundentes recriações da oposição entre Igreja e Estado. E, cá entre nós, cada dueto… Verdi não escreve um, mas três duetos, para Carlo e Elisabetta. Os dois, herdeiros do trono espanhol e francês, vão se casar por determinação dos pais e se apaixonam loucamente um pelo outro. Mas Felipe II, o monarca espanhol, pai de Carlo, resolve ele mesmo se casar com a jovem princesa, tornando impossível o amor dos infantes. No primeiro dueto, o encontro e a descoberta da paixão; no segundo, o reencontro proibido; e, no terceiro, a decisão resignada de se afastarem um do outro. Estão no You Tube. Vale a pena.

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