“Traviata” no Municipal: amor como solidão

“Traviata” no Municipal: amor como solidão

João Luiz Sampaio

29 de março de 2012 | 18h03

Irina Dubrovskaya como Violetta em "La Traviata"/José Patricio/AE

Ainda que seja a morte o destino inevitável de Violetta, é outra a tragédia de que Verdi nos fala em “La Traviata”. No caminho que leva das festas dos salões parisienses à casa no campo onde passa a viver com o jovem Alfredo, a cortesã vai do desencanto com a vida, de um deserto de relações estéreis, a uma crença renovada na possibilidade do amor, da felicidade. Seu grande drama é este: voltar a acreditar para, pouco depois, ser confrontada com a realidade que a devolve à rotina de antes. É uma morte ainda em vida, que antecede seu desaparecimento; e que ela se dê à luz do espaço público, do preconceito da sociedade, só torna ainda mais solitária sua condição. Passamos, então, ao campo da oposição – seria melhor dizer necessidade de convivência – entre o pessoal e o público, um dos grandes temas abordados pelo compositor. Em Verdi, o contexto social ou político nunca é apenas pano de fundo. O todo relaciona-se com o detalhe de maneira fluída e é por meio desse diálogo com um contexto dado que o compositor nos oferece um olhar dilacerante sobre o íntimo das personagens.Cenas como o confronto de Alfredo com Violetta durante a festa na casa de Flora, observado por todos os convidados, são emblemáticas do teatro verdiniano – e a relação entre público e privado que ensejam é o eixo em torno do qual se articula a montagem de “La Traviata” assinada pelo italiano Danielle Abbado, que abriu na semana passada a temporada do Teatro Municipal de São Paulo. A decisão de não deixar os personagens sozinhos em cena; o cenário único, aberto, praticamente sem elementos; a luz, forte, quase chapada – são escolhas que, em uma leitura integrada e atenta aos detalhes, ressaltam a agressividade com que pode se dar a relação do meio com o que temos de mais íntimo. O destaque da montagem, no entanto, em diálogo com o espectro mais amplo da concepção do diretor, é o trabalho cuidadoso na orientação dos cantores/atores. A movimentação no palco segue uma estrutura quase geométrica. E isso permite que, mesmo em cena, personagens surjam e desapareçam a todo instante, obedecendo aos estímulos da história e traduzindo cenicamente a profusão de sensações e projeções em jogo. Na noite de estreia, na quinta-feira, subiram ao palco a soprano Irina Dubrovskaya, o tenor Roberto di Biasio e o barítono Paolo Coni; na segunda récita, realizada na sexta, foi a vez do primeiro elenco brasileiro, composto pela soprano Adriane Queiroz, o tenor Marcelo Vanucci e o barítono Rodolfo Giuliani (o segundo, formado por Rosana Lamosa, Fernando Portari e Leonardo Neiva, será responsável pelas récitas de abril). Irina Dubrovskaya, apesar dos problemas de emissão nas regiões média e grave da voz, teve desempenho mais homogêneo do que Adriane Queiroz, atrapalhada pelos agudos do primeiro ato. No entanto, o modo como a paraense cresce em cena justamente à medida que a escrita vocal de Verdi torna-se mais densa e pesada, maneira de retratar por meio da música a trajetória da personagem em direção a seu fim trágico, torna sua Violetta mais convincente – teatral e musicalmente. Entre os homens, chama a atenção a riqueza de coloridos das vozes de Vanucci e Giuliani, ainda que Di Biasio se destaque pela maneira como explora o potencial expressivo de seu timbre e Coni ofereça autoridade ímpar, capaz de compensar uma voz já desgastada pelo tempo. À frente da Sinfônica Municipal, o maestro Abel Rocha ofereceu aquilo que o público paulistano espera dele – a capacidade de devolver à orquestra e ao teatro um bom nível de execução musical. Os pequenos deslizes da Municipal, em especial na estreia, são jogados em segundo plano por uma regência teatral, atenta à cena – e que em momento algum perde a inspiração.

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