Transições

João Luiz Sampaio

25 de dezembro de 2012 | 22h18

Estão cada vez mais fortes os rumores de que, com a chegada de Juca Ferreira à Secretaria Municipal de Cultura, o maestro John Neschling deve assumir o Teatro Municipal de São Paulo. Faz sentido – e não apenas porque, desde que saiu da Osesp, Neschling tem seu nome levantado sempre que uma vaga se abre no cenário musical brasileiro: basta lembrar que foi na gestão de Ferreira no Ministério da Cultura que o maestro criou, com apoio do governo federal, sua companhia de ópera. Seja como for, porém, e apesar do atual secretário Carlos Augusto Calil ter falado em entrevistas sobre ajudar na transição, a troca de guarda no Municipal não deve ocorrer de maneira tranquila.

Na quinta-feira, o Diário Oficial do Município trouxe informações sobre a nomeação da atual diretora do Teatro Municipal de São Paulo, Beatriz Franco do Amaral, como diretora geral da Fundação Teatro Municipal de São Paulo. É isso mesmo: a pouco mais de dez dias do fim da gestão, a prefeitura nomeia cargos na fundação e preserva Bia Amaral à frente do Municipal. Além disso, o fato é que pouco se sabe sobre ela. Desde que assumiu o teatro, ela se recusou a falar com a imprensa – todos os pedidos de entrevista eram imediatamente direcionados para o gabinete do secretário de Cultura. Ela também mostrou-se ausente em momentos-chave da história recente do Municipal, como o período em que os músicos pediram a saída do maestro Rodrigo de Carvalho, em 2009. Foi também sob sua guarda, é justo lembrar, que o Municipal voltou a produzir ópera regularmente após a reforma do prédio – ainda que isto tenha acontecido por meio de uma questionável decisão de terceirizar a produção da casa., o que aumentou consideravelmete os custos com relação a gestões anteriores.

Mas há, nessa nomeação, um aspecto mais amplo a ser questionado, que vai além das atribuições de Bia Amaral para o posto. O fato é que, criada há seis meses, a Fundação Teatro Municipal de São Paulo não foi institucionalizada, por falta de uma organização social disposta a se responsabilizar por sua gestão (leia mais detalhes sobre o tema em artigo de Irineu Franco Perpetuo para o site da revista Concerto). E isso significa que, a não ser que algo seja feito ao longo desta semana, artistas, professores e funcionários do teatro entram em 2013 sem contratos a médio e longo prazo, o que com certeza poderá ter consequências no início de um novo projeto artístico. Nesse contexto, a preservação de Bia Amaral à frente da gestão do Municipal é no mínimo curiosa.

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