Tradições

João Luiz Sampaio

22 de março de 2011 | 18h47

Estou há dias para comentar os concertos da semana passada da Sinfônica do Estado na Sala São Paulo. Vi a apresentação de quinta e o que me chamou atenção foi a regência de Rafael Frühbeck de Burgos. Ele foi a estrela da noite – a música, do início ao fim, o reflexo de sua personalidade. Pela duração de um concerto, a gente precisa esquecer do Beethoven clássico tardio mais do que romântico de primeira hora, das articulações ligeiras, da dinâmica como o princípio de tudo. E isso não é necessariamente ruim. Colocando em segundo plano, ainda que sem ignorá-las, as pesquisas do movimento da música historicamente informada, a “Nona” de De Burgos relaciona-se com a interpretação da primeira metade do século 20, viaja de volta à tradição germânica, lembra Karl Böhm, evoca Furtwängler. E o fascínio vem justamente da capacidade de bagunçar as décadas, ignorar o tempo, e sugerir um movimento de permanência mesmo em meio à ruptura e os dogmas. No final das contas, no meio da discussão entre épocas e estilos, fica o poder do intérprete, da relação honesta entre um homem e a obra que interpreta. E isso é sempre fascinante.

Hinos. Em um discurso com tons de autocongratulação, o diretor artístico Artur Nestrovski abriu a noite de quinta celebrando os feitos da direção artística e da direção executiva da Osesp. E chamou de “uma tradição nascente” a (sua) ideia de abrir a temporada com uma obra escrita por autor brasileiro a partir do Hino Nacional Brasileiro, que foi banido das temporadas (o que, por sinal, levou a uma saia justa na edição de 2010 do Festival de Inverno de Campos do Jordão). Bom, no ano passado, a fantasia de Andre Mehmari virou espetáculo de autocitação do maestro francês Yan Pascal Tortelier, que enfiou na partitura do compositor trechos da Marselhesa; estreada na quinta, a “Fanfarra” de Edino Krieger, nas palavras precisas do crítico João Marcos Coelho, não é mais que “cinco minutos de fanfarra previsível evocando motivos do Hino que nada acrescenta ao conjunto da sua obra nem enobrece o próprio hino.” Enfim, dois anos depois, o fato é que a ideia não vingou.

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