Tosca: ópera, rituais, desejo – e uma discussão ultrapassada

Tosca: ópera, rituais, desejo – e uma discussão ultrapassada

Livro ajuda a compreender a obra de Puccini e seu legado; tenor gera polêmica ao falar sobre obsessão da ópera com o passado; e, nas redes sociais, um debate que não se renova nunca

João Luiz Sampaio

01 Dezembro 2014 | 13h55

Ainhoa Arteta e Marcelo Álvarez em 'Tosca'/ Desiree Furoni

Ainhoa Arteta e Marcelo Álvarez em ‘Tosca’/ Desiree Furoni

Há algum tempo estou para escrever sobre o livro Tosca’s Prism, editado pela Northeastern University. A proposta é interessante: a partir da ópera de Puccini, autores discutem temas dos mais variados, examinando três momentos da história cultural e política. O primeiro é 1800, época em que se passa a história; o segundo, 1900, quando Puccini escreve a ópera; e o terceiro, 2000, discute o modo como vemos hoje a obra e seus temas. Há alguns textos particularmente interessantes, como aquele em que, bem humorado, Julian Budden compara a Tosca da peça de Victorien Sardou com a da ópera. Ou então uma entrevista com dois grandes intérpretes: a soprano Magda Olivero e o tenor Giuseppe Di Stefano, que compartilham suas memórias de uma vida dedicada a Tosca e Cavaradossi.

Da entrevista participa também um diretor cênico, o italiano Luigi Squarzina. E, em sua análise da obra, me chamou a atenção um aspecto pouco notado: o modo como a história, em seus três atos, lida com três importantes rituais, enraizadas na memória do ocidente. No primeiro, o Te Deum; no segundo, a tortura; e, no terceiro, o fuzilamento. Esse aspecto, de cara, associa a crença religiosa à morte, o que carrega uma crítica importante. Mas Squarzina vai além. “Rituais podem ser uma força grandiosa no teatro, em especial quando estão carregados de paixões. Um rito nunca perdoa ou oferece uma conclusão: ele cria uma passagem de um estado para outro. A paixão, no entanto, anseia ou por um final feliz ou por uma dialética humana dolorida.”

A proposta de Squarzina me leva a crer que, diferente do que se costuma apregoar, o contexto político da Tosca não é mero pano de fundo para uma história de amor. Há, entre, o individual e o coletivo, uma ligação mais forte, intrínseca – e teatral. E isso me voltou à mente assistindo à produção atualmente em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo. Tanto a cena na igreja, no primeiro ato, como o fuzilamente, no terceiro, acontecem normalmente sobre o palco, perante o público – mas a produção de Marco Gandini encontra uma solução interessante para a cena da tortura, tornando-a mais presente, vívida, e isso, de alguma forma, refaz a nossa percepção com relação ao segundo ato e reafirma a maestria teatral de Puccini, o modo como constrói a ideia dramática. Sobre a montagem em cartaz, de qualquer forma, paro por aqui. Assisti no domingo o segundo elenco e, amanhã, volto ao teatro para ver o primeiro. Depois de vistas as duas récitas, comento com mais calma o desempenho da produção.

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Achei curioso que, em Tosca’s Prism, o autor da entrevista tenha conversado com uma soprano, um tenor, um diretor, um empresário – e nenhum barítono. Scarpia é um dos personagens mais fascinantes da literatura operística. Não porque é capaz de torturar um homem para dormir com sua mulher – mas porque faz isso não por paixão ou pelo desejo de ter em seus braços o objeto de seu amor mas, sim, pelo simples exercício de poder que se mistura a um desejo de destruição que passa pelo ato sexual. É, por conta disso, um personagem extremamente moderno, talvez o mais atual e complexo da ópera e da obra de Puccini.

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Entrevistei para o Caderno 2 o tenor Marcelo Álvarez, que interpreta Cavaradossi na produção do Municipal. A certa altura, ele critica a obsessão do mundo da ópera com o passado. “Estamos sempre cantando com os mortos. Sempre tem gente dizendo que o passado era melhor. Não, não era, mas estas são pessoas ultrapassadas que não aceitam que o mundo mudou porque, ao fazer isso, teriam que reconhecer que ficaram parados no tempo. O cantor hoje precisa ser muito mais completo, saber cantar e atuar. Além disso, as orquestras aumentaram muito, os teatros ficaram maiores e você canta muito mais do que antes. Como é que esses grandes cantores do passado se virariam em uma situação como essa?”

O comentário gerou repercussão nas redes sociais, que acompanhei com interesse. Mas o engraçado é que a discussão acaba girando em torno da validade da atualização ou não das tramas em novas montagens e do fato de que os cantores, hoje, precisam saber atuar. No fundo, no fundo, me parecem duas questões já um pouco antigas. Será que o valor de uma produção ainda precisa ser julgado pela dicotomia tradição x aggiornamento? Ainda há dúvidas sobre o fato de que o cantor também é um ator? Tenho a sensação de que as respostas a essas duas questões são já dois pontos pacíficos. E que seria mais interessante pensar no que vem em seguida. Esse é um debate que eu gostaria de acompanhar.