Desejo de vida

Desejo de vida

João Luiz Sampaio

22 de junho de 2009 | 23h42

Escapei da redação no meio da tarde para uma consulta médica e, no caminho de volta, mesmo com uma série de coisas para resolver, acabei mudando de rota e indo em direção à Sala São Paulo para ver a Sinfônica da Usp com o maestro Luís Gustavo Petri em um programa todo dedicado a autores franceses. Não me arrependi. Tudo bem que agora devo entrar a madrugada escrevendo alguns textos pendentes, mas valeu a pena: o tema principal da ‘Sinfonia’ de César Franck não me sai da mente – e há maneiras piores de se passara noite, não?

O belga Franck, radicado em Paris, é uma figura interessante na vida musical francesa do século 19. Essa é sua única sinfonia, escrita pouco antes de sua morte. É comum atestar que é a obra da fase final de sua vida a mais interessante. Autores se revezam na afirmação de que, homem profundamente reservado, foi apenas então que suas peças ganharam uma expressividade maior, com o compositor enfim deixando falar por meio de sua música um poder expressivo muito grande, a afirmação de um desejo de vida, mesmo que pontuado pela percepção sombria de quem durante tempo manteve-se tão próximo de si mesmo. Sua ‘Sinfonia’ equilibra-se entre esses dois extremos, colocando lado a lado aspectos contrastantes da inspiração. Há o que se chama de “pensamento cíclico” em sua música, o que significa, basicamente, a criação de um ou poucos temas que, ao longo de toda a peça, vão se transformando e dando a ela uniformidade. O tema é fascinante. E a regência de Petri, tão atenta às modulações por ele sofridas, nos surpreende a cada instante com seu retorno, das sombras do “Lento” inicial à esperança do “Allegro” final. Não sei, mas esse tema sempre me traz uma sensação boa, um desejo de vida, nada inocente ou ingênuo, simplesmente uma evocação da arte possível de viver. Antes do Frank, Petri fez um sensacional “Prelúdio à Tarde de um Fauno”, de Debussy, com uma clareza de texturas rara de se ver; e, antes do intervalo, o ‘Pelleas e Melisande’, de Fauré. Já disse, repito: Luís Gustavo Petri é um de nossos mais inteligentes e importantes maestros.

A Sinfônica da Usp foi criada por Camargo Guarnieri nos anos 80. Depois da morte do compositor, foi se mantendo dentro da universidade, mas sem uma programação expressiva. Há algus anos, elegeu como diretor artístico e regente titular o maestro Carlos Moreno. Ele criou o Projeto Academia, com a interpretação de ciclos completos de compositores como Beethoven, Brahms, Villa-Lobos, Tchaikovsky, visando a reformulação da sonoridade da orquestra e o reencontro dela com seu público, dentro e fora do campus – além dos concertos na Cidade Universitária, ganhou série de assinaturas na Sala São Paulo. A iniciativa era ousada, mas deu certo, virando sucesso de público e de crítica. Moreno sempre advogou por melhores condições de trabalho, salários, um modelo moderno de gestão que permitisse ao grupo alçar voos mais altos. No ano passado, jogou a toalha e encerrou seu ciclo com a orquestra. Desde então, a Osusp não tem um maestro titular oficial. E vem sendo regida por convidados. Os ecos do trabalho de Moreno ainda são audíveis. Mas é importante, para a evolução do trabalho da orquestra, que outro regente passe a trabalhar com ela constantemente. Ao que parece, uma lista tríplice deve ser formada e enviada ao reitor da universidade, responsável pela escolha. Cadê? Se a história ensina uma coisa é que projetos consistentes levam tempo para se concretizar – mas podem desmoronar com rapidez assombrosa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: