Gilberto Mendes fala de novas obras

Gilberto Mendes fala de novas obras

João Luiz Sampaio

22 de junho de 2009 | 14h22

O compositor Gilberto Mendes será um dos homenageados desta edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Escreveu para o evento duas peças (“Sinfonia de Navios Andantes” e “Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul”), que serão estreadas em concerto do Grupo de Música Contemporânea do Festival. Pedi a ele que falasse um pouco das peças. E reproduzo então, aqui, o texto que ele me mandou.

Robson Fernandjes/AE

“A música é baseada no poema ‘Sinfonia de navios andantes’, do escritor santista Flávio Viegas Amoreira, meu grande amigo. Tem, naturalmente, o mesmo titulo do poema, que é um protesto contra algumas pessoas aqui em Santos que andaram reclamando do apito dos navios, vê se é possivel ! Mas não é uma sinfonia, é para grupo instrumental : flauta, clarineta, fagote, trompa, piano, marimba, 2 violinos, viola, celo, contrabaixo e bongos, todo o instrumental que puseram à minha disposição. Ótimos músicos entre os intérpretes, como o Tarcha, Montanha, Paulo Alvares, O regente será o francês Guillaume Bourgogne, que é do Conservatório de Paris. Estou meio preocupado, porque esse Conservatório é muito bouleziano e minha música não tem nada do Boulez, tem até um pouquinho do Stockhausen dos velhos tempos. No mais, é bem na minha linha estritamente americana. (…)

Na minha peça ‘Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul’ eu coloquei uma série dodecafônica que aparerce no desenrolar da peça, mas não é usada como material musical, é somente para situar, representar Webern na peça. Resolvi utilizar essa série nesta minha música, devido ao seu caráter de paisagem, romântico, meio mares do sul. Mas construí ainda uma nova série bem dura, cheia de trítonos. Eu jogo com as duas séries, ora uma, ora outra, com momentos livres entre elas, de maneira linear, num fluxo sempre melódico, mas não na ordem da sequência das notas dentro das séries. Como se as duas séries fossem dois modos, como os modos de valores do Messiaen. Não há contraponto nem harmonizações, embora o resultado soe muito harmonico. Depois de um certo ponto tudo o que já foi composto se torna tambem um ‘modo’, sobre o qual tambem passo a trabalhar, escolhendo momentos que me interessam mais, uma espécie de ritornello fragmentado do que já aconteceu. Porém, coisas novas continuam acontecendo. Alguns momentos da peça são de outras peças que já compus, como se todas elas constituissem tambem um grande modo a ser usado. É um novo ‘bolero’ que compus, na mesma linha de dança de salão de meu ‘Slow Dance of Love’.”

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