Sobre Vivica, por Lauro Machado Coelho

João Luiz Sampaio

28 de maio de 2009 | 11h33

O crítico do “Caderno 2” Lauro Machado Coelho esteve na apresentação da meio-soprano Vivica Genaux. Mandou-me, hoje, o seguinte recado: “João,
uma indisposição inesperada me forçou a sair da apresentação de Vivica Genaux, na terça-feira, no final da primeira parte. Não posso comentar, para o jornal, um concerto de que só vi a metade. Mas para o seu blog, eu posso, informalmente, dizer quais foram as minhas impressões – ressalvando que elas poderiam ter sido modificadas pela segunda parte.”
Aqui estão, portanto, os comentários que ele me enviou, com o prazer de hospedar por aqui as opiniões do grande colega e amigo.

O grande atrativo, é claro, foi a participação de Vivica Genaux. Sem ter um timbre exatamente bonito – algumas de suas inflexões têm um colorido bastante peculiar e não de todo agradáveis – ela é uma cantora muito musical e com uma técnica extremamente segura. Dominou com muita facilidade as velozes roulades de “Sta nell’ircana”, da “Alcina” ou de “Dopo notte atra e funesta”, da “Ariodante”, com uma regularidade de emissão que deixou a linha de ornamentação muito clara. Tem um legato bastante elegante – e, por sinal, numa ária lenta, como “Cara speme”, do “Giulio Cesare in Egitto”, a sua irregularidade de timbre torna-se bem menos perceptível. Além do mais, é uma cantora jovem, expressiva – parece que com boa presença no palco (embora não seja muito fácil avaliar isso em um recital de árias idoladas) e terá certamente um belo amadurecimento pela frente. Lamentei não ter podido ouvir “Di quell’acciaro al lampo”, do “Solimano” de J. A. Hasse, pois seria interessante comparar a sua leitura desse autor – cujas ópera são muito bonitas – com as de Haendel. Quanto ao Concerto Köln, o seu desempenho foi muito irregular. A execução da primeira suíte da “Música Aquática” foi, para ser muito sincero, totalmente “aguada”. O som deles é muito adequado: as cordas sem vibrato, a afinação mais aguda dos sopros (com madeiras nitidamente melhores do que os metais). Mas o que faltou foi energia. Foi uma leitura bastante frouxa (o que foi estranho porque, na primeira ária de Haendel, eles tocaram com muito maior convicção). A interpretação do “Concerto nº 23 RV. 407”, para violoncelo, de Vivaldi, começou bem… mas terminou mal. Werner Matzke é um bom instrumentista e foi bastante feliz no segundo movimento, “Largo e sempre piano”, que é muito original com a sua longa linha legato, contra um ostinato das cordas agudas. Mas cometeu, a meu ver, um erro estilístico, ao não perceber – ou não levar em conta – que o concerto tem uma estrutura simétrica: allegro – largo – allegro. Por querer fazer uma demonstração de virtuosismo, tocou o finale em um andamento presto que tornou o fraseado emboladíssimo.

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