Sinfônica de Heliópolis, sucesso no primeiro concerto em Bonn

João Luiz Sampaio

06 de outubro de 2010 | 11h13

Foi logo após o concerto, na noite de segunda, ainda nos bastidores do Beethovenhalle. Gritos de euforia, abraços, lágrimas, orações. Alguém, via skype, conseguiu uma conexão com São Paulo. Os músicos improvisaram uma coreografia; e o chorinho logo deu lugar ao Hino Nacional brasileiro, cantado a plenos pulmões, dos dois lados do Atlântico. Acabava assim a primeira apresentação da Sinfônica de Heliópolis na Alemanha – mas a festa estava apenas começando. Ao entrar no palco, os músicos, acompanhados pela percussão, executaram a coreografia de José Possi Neto – em grupos, buscavam seus lugares dançando. E o medo com relação à frieza da plateia alemã logo se dissipou, com as palmas com que ela acompanhou a entrada. Em seguida, Cidade do Sol, de André Mehmari, obra encomendada pela Deutsche Welle para esta turnê. A peça foge do óbvio ao unir o material de canções de Schubert – Aus Heliopolis – com a música popular brasileira, retratando musicalmente a viagem desses músicos à Alemanha. Utilizar as cordas soltas logo na seção inicial evoca ao longe a afinação de uma orquestra – é o começo de um concerto, o começo de uma orquestra, o nascer do sol, o nascer desses músicos? Mehmari opõe habilmente momentos de lirismo delicado, em que a música parece viver no limite, com passagens de sonoridade opulenta. Com isso, explora todas as possibilidades dos músicos. Em seguida, Villa-Lobos, dois movimentos das Bachianas n.º 4. E, em seguida, Tchaikovski – Concerto para Violino e Orquestra, com solos de Shlomo Mintz, que em leitura pessoal exigiu dos músicos a capacidade de esquecer boa parte dos ensaios e fazer música em tempo real. Então, o intervalo, e o maestro Silvio Baccarelli, responsável pelo projeto, era saudado pela plateia. Sorrindo, ele só conseguia dizer: “As pernas estão bambas, não vão aguentar!” E se preparava para a segunda parte: “E agora, hein?! Beethoven na terra deles!” Sim, Sinfonia n.º 8. Metais precisos, cordas ágeis, sonoridade coesa, de olho na regência elegante e eficiente de Roberto Tibiriçá. Se há problemas pontuais – e a necessidade de instrumentos de maior qualidade é talvez o maior deles -, a apresentação deixou claro um senso crescente de conjunto. No bis, festa, público de pé: um pot-pourri nacional, Brasileirinho, Aquarela do Brasil, Tico-Tico no Fubá. E a brilhante abertura da ópera Ruslan e Ludmila, de Glinka. Após o concerto, na recepção oferecida pelo Beethovenfest, aos músicos e às famílias que os receberam, logo era ouvido chorinho, samba. Os músicos cantaram, dançaram. Uma alemã foi até o maestro Baccarelli e lhe entregou um violino. “É um instrumento de 1810, está na minha família há tempos e eu o usei a vida toda, profissionalmente. Agora, está parado e eu gostaria que o senhor o levasse para o Brasil.” A festa entrou na madrugada. As famílias não resistiram e, puxados pelos filhos adotivos, “pais” e “irmãos” entraram na dança. A Sinfônica de Heliópolis fez os alemães sambarem. Literalmente.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: