Silvio Baccareli (1931-2019)

Silvio Baccareli (1931-2019)

Maestro foi responsável pela criação de um dos mais importantes projetos de formação musical e inclusão social do país

João Luiz Sampaio

21 de junho de 2019 | 14h59

Idealizador de um dos mais importantes projetos de formação musical do país, morreu na manhã desta sexta-feira, 21, o maestro e compositor Silvio Baccarelli, aos 88 anos. Seu corpo será velado a partir das 18 horas no Salão dos Espelhos da Assembleia Legislativa e será cremado amanhã, às 11 horas, em cerimônia no Crematório de Vila Alpina.

Baccarelli ficou conhecido pelo conjunto que, levando seu nome, tornou-se presença constante em casamentos em toda São Paulo. Nos anos 1990, no entanto, ao ver na televisão a notícia de um incêndio que destruía a favela de Heliópolis, resolveu criar um projeto de formação de músicos destinado a crianças e jovens da comunidade.

Em sua primeira década, o projeto ocupava um pequeno espaço na Vila Mariana. Em 2005, no entanto, mudou-se para Heliópolis, onde o trabalho passou a ser realizado em uma antiga fábrica de sucos. Quatro anos depois, o Instituto Baccarelli inaugurou sua sede na Estrada das Lágrimas, onde atualmente atende 1.200 crianças – em 1996, eram 36 integrantes.

Com o crescimento do instituto, o trabalho alcançou novos patamares. A Orquestra Sinfônica Heliópolis tornou-se um dos principais grupos do país, com temporadas regulares em São Paulo e turnês brasileiras e internacionais. Boa parte dos músicos formados no instituto seguiram para o exterior par completar seus estudos e integram orquestras em todo o Brasil. Zubin Mehta tornou-se patrono do projeto e Isaac Karabtchevsky é hoje seu diretor artístico. Da mesma forma, seus corais, como o Coral da Gente, também se tornaram símbolos do canto como porta de entrada para a música e o desenvolvimento da sensibilidade dos alunos.

A essência do projeto, no entanto, vai além da formação musical. A concepção de Baccarrelli, levada adiante pelos diretores do instituto, é a de que a música é uma ferramenta de cidadania. No momento em que aprende um instrumento, a criança que vive em uma situação onde lhe faltam condições de sobrevivência, recupera sua capacidade de sonhar, de imaginação. E, ao subir no palco e se apresentar, recupera uma voz própria que lhe é negada pela sociedade.

Baccarelli estava afastado do cotidiano do instituto desde 2011, por motivos de saúde. Mas o legado de seu trabalho segue na vida dos jovens que passaram pelo instituto. Não é só maneira de dizer. Se, nos últimos vinte anos, a presença de projetos de formação musical e inclusão social ajudaram a redefinir a paisagem do meio musical brasileiro, então o nome de Silvio Baccarelli precisará ser parte dessa história. Uma história que, transmitida adiante por gerações de alunos, permanece viva e longe de acabar.

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