Shirley Verrett (1931-2010)

João Luiz Sampaio

08 de novembro de 2010 | 16h44

 

Ouvi Shirley Verrett pela primeira vez como Eboli, no “Don Carlo”, de Verdi. Era a gravação de Carlo Maria Giulini, a minha primeira da ópera, que me acompanha até hoje, sempre na cabeceira. O que impressionava era a riqueza de coloridos e a dramaticidade que com o tempo fui descobrindo também em outras gravações. Sua Lady Macbeth na adaptação de Verdi da peça de Shakespeare, regida por Claudio Abbado, por exemplo – e, claro, sua Dalila, cênica e musicalmente envolvente no vídeo da Ópera de São Francisco, com Plácido Domingo como Sansão. É curioso pois ela, ainda que muito admirada, nunca entrou sem ressalvas no hall das grandes cantoras americanas, parecia sempre um passo atrás de nomes como Leontyne Price, Jessye Norman ou mesmo Marilyn Horne. Contribuiu para isso a decisão, no final dos anos 70, de não se limitar aos papéis de mezzosoprano e entrar no universo das sopranos dramáticas. Material para isso ela tinha, com agudos brilhantes e encorpados. Mas para alguns críticos, a voz começou ali a se perder, levando a interpretações problemáticas. Ela, de fato, fez de tudo: no Metropolitan foi Adalgisa e, duas semanas depois, na mesma produção, cantou “Norma” – e esta não foi a única vez em que ela enfrentou papéis de uma mesma ópera para tipos diferentes de vozes. A irregularidade talvez tivesse menos a ver com o repertório do que com um problema sério de alergias que a acompanhou ao longo de toda a carreira, como bem lembrou Anthony Tommasini no New York Times. Particularmente, ela sempre me agradou mais nos papéis de mezzo. Mas Verrett tem lugar de destaque na lista das grandes da segunda metade do século 20. A irregularidade – se causada pela escolha pessoal, contra qualquer modelo, de repertório – está mais do que perdoada.

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