Sempre Verdi – Diário da Itália (1)

João Luiz Sampaio

19 de maio de 2011 | 19h27

Desde terça-feira estou na Itália, fazendo uma matéria para o suplemento de Viagem do jornal. Estou acompanhando quatro artistas brasileiros convidados pelo Ministério do Turismo da Itália a criar obras inspiradas no país: Antonio Peticov, Zélio Alves Pinto, Claudio Tozzi e Caciporé. É um grupo interessante – e divertido. E logo, prometo, conto mais sobre isso. Antes, um pouquinho de música, que ninguém é de ferrro. Chegamos em Milão, seguimos para Como, em seguida Curmayer; ontem Torino e, hoje à tarde, San Margherita de Liguria. Será assim até quinta que vem, uma cidade por dia. Em Torino, conheci hoje cedo o Teatro Regio, reconstruído depois de um incêndio, se não me engano, nos anos 80. Mas fiquei mesmo encantado com uma lojinha ao lado, Augusta, fundada em 1892, que hoje vende discos e DVDs. Estava fechada para o almoço, mas a vitrine me deixou com água na boca, com uma série de CDs (piratas, talvez?) de óperas gravadas não apenas em Torino como em outras cidades italianas. Callas, Tebaldi, Corelli, Di Stefano, Gobbi – enfim, aquela turma. E fiquei curioso principalmente com um “Werther” cantado por Alfredo Kraus e…Regine Créspin! Isso deve ser realmente interessante – mas a correria para o deslocamento entre as cidades me impediu de esperar a reabertura da loja. De qualquer forma, comecei o post pensando na verdade em falar de Verdi. Antes de embarcar, no domingo acompanhei um concerto dedicado a ele no Teatro São Pedro, com Gabriella Pace e Rodrigo Esteves (a crítica você lê aqui). Certa vez pedi ao Sergio Casoy, provavelmente na mesa de restaurante de algum festival de ópera Brasil afora, que me definisse o que fazia de Verdi algo tão importante e interessante. Nunca me esqueci da resposta: “Verdi é como o macarrão da mamma”. Perfeito, não? Durante o concerto pensava nisso: como sua música é familiar, soa nossa, e ao mesmo tempo não deixa de surpreender em seu poder dramático e narrativo, seja nas óperas do início da carreira, seja nas do final. Por aqui, tenho visto Verdi em todo o canto, afinal em 2011 se comemoram os 150 anos da reunificação italiana, que teve em Verdi um de seus pilares. A temporada do Teatro Regio anuncia: “Sempre Verdi”, com I Vespri Sicilianni, Nabucco, Rigoletto e La Traviata; no ano que vem, Macbeth, Ballo, Simon. Não sei ao certo o quanto Verdi ainda faz parte do imaginário nacional – se ainda é um símbolo de fato ou apenas a lembrança de algo ensinado na escola. Mas confesso que, na varanda, contemplando o mar da Liguria, próximo a Gênova, ouvindo Simon Boccanegra, dá vonta de gritar, como os revolucionários de 150 anos atrás: VIVA VERDI!

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