Seis jovens músicos brasileiros rumo à Europa

Seis jovens músicos brasileiros rumo à Europa

Alunos da Emesp, Guilherme Moraes, Matheus Posso, André Lima, Camila Ribeiro, Lucas Figueiredo e Marcelo Politano foram aprovados em conservatórios da Holanda, Dinamarca e Áustria. O blog conversou com eles, que falaram sobre a expectativa da viagem, a relação com a música e, em alguns casos, os desafios financeiros da empreitada

João Luiz Sampaio

24 de agosto de 2015 | 15h10

Dois violoncelistas, uma violista, um saxofonista, um compositor. Seis jovens músicos brasileiros, alunos da Escola de Música do Estado de São Paulo, estão se preparando para partir para estudos na Europa, em instituições como o Mozarteum de Salzburgo, a Academia Nacional de Música da Dinamarca e o Conservatório de Amsterdã. O blog conversou com eles, que falaram sobre a expectativa da viagem, a relação com a música e, em alguns casos, os desafios financeiros da empreitada.

 

música clássica

Guilherme Moraes

Ida e volta

Guilherme Moraes nasceu no Perus, tem 18 anos, dos quais dez foram dedicados à música. “Na verdade, entre os 9 e os 10 anos eu meio que parei de tocar. Estava desanimado, não tinha aulas regulares e acabei deixando o instrumento de lado”, ele conta. Acabou, no entanto, fazendo a prova para a Escola de Música do Estado de São Paulo – e a decisão o fez não apenas ter certeza de que queria se tornar um músico, como confirmou a paixão pelo violoncelo. “Tem algo no som, não sei definir, mas sei que mexe muito comigo. Acho que é o tipo de emoção, o caráter do instrumento mesmo.”

Em 2013, ele entrou para a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo. Ali, diz, terminou de compreender que “fazer música é se entregar”. “É passar aquilo que você é, aquilo que você tem dentro de você, para os outros – e para você também.” No ano passado, venceu o Prêmio Ernani de Almeida Machado, que dá uma bolsa de R$ 60 mil para um dos alunos da Emesp, escolhido em uma prova na qual é avaliado por professores, músicos convidados e críticos. Com o dinheiro, vai para a Salzburgo, estudar no Mozarteum. “Tenho certeza de que vai ser uma experiência diferente, especial mesmo”, ele diz. E pretende voltar. “Nós somos frutos de uma mudança no modo como se forma músicos no Brasil. E acho que é nosso papel aproveitar essa oportunidade de ir para for a e depois voltar e continuar a promover essa mudança.”

 

 

música clássica

Matheus Posso

Tocar e dar aulas

Mateus Posso também está de malas prontas para o Mozarteum de Salzburgo. “A expectativa é muito grande, a vida vai ser diferente, é outra cultura, vamos ter contato com outras pessoas, vai ser uma quebra de realidade mesmo. Aqui a gente já tem uma rotina que lá não vai existir, é um outro começo”, diz. Ele nasceu e cresceu em Guaianazes. Aos 13 anos, começou na música na igreja frequentada pela família. Um ano depois, entrou para o Projeto Guri. Mas a escolha pelo violoncelo como caminho profissional viria um pouco mais tarde, quando prestou o vestibular e entrou na Unesp. Em 2012, passou a integrar a Orquestra Jovem, na qual ficou até o ano passado. Trabalhar na orquestra, ele diz, foi uma experiência muito rica. Mas ele pensa em um futuro diferente. Se tudo der certo, conta, gostaria de ver sua carreira profissional girar em torno de um “bom conjunto de câmara”. “Gostaria também de dar aulas, de seguir envolvido com a questão pedagógica no Brasil.”

 

música clássica

André Felipe Lima

Música de câmara

André Felipe Lima concorda. “Eu me imagino no futuro como professor de violino e como parte de um ou mais conjuntos de câmara, além da orquestra.  Acho que os músicos tem que tentar mais, buscar um trabalho mais criativo”, diz.  Aos 21 anos, ele embarca em breve para Amsterdã. Seu instrumento é o violino, pelo qual “se apaixonou” aos 11 anos. Antes, tocava em uma banda da escola, “um pouco de tudo”: flauta, guitarra, baixo, clarinete. Mas entrar em um projeto musical no CEU Butantã, voltado para as cordas, foi uma revelação. “Foi ali que descobri o violino e passei a ter ideia fixa de que queria ser músico”, ele conta.

Aos 13 anos, entrou para a Emesp. Passou pelo Festival de Campos do Jordão, pela Orquestra Experimental de Repertório. “Mas tocar na Orquestra Jovem com o maestro Claudio Cruz foi incrível, um aprendizado grande. Ele, primeiro, é um grande violinista também. Mas principalmente porque, quando ele está ensaiando a gente, fica claro que este não é só o projeto de uma orquestra, é um modo de ajudar o músico a crescer também.” André passou três meses em Amsterdã no começo deste ano. Realizou o sonho de estudar fora do país. Voltou ao Brasil com a possibilidade de uma vaga no bacharelado em violino no conservatório da capital holandesa. Para tanto, lançou uma campanha virtual de arrecadação, com o objetivo de conseguir o dinheiro para se manter na cidade durante o curso.  (Para ter acesso, basta clicar aqui)

 

música clássica

Lucas Figueiredo

Saxofone

Lucas Figueiredo também recorreu à internet para conseguir o dinheiro necessário para realizar seu sonho de estudar fora. Aos 21 anos, ele foi aprovado no Conservatório de Amsterdã, onde passou dois meses com uma bolsa. “Saí de lá com o convite para voltar. E é claro que quero, mas a questão financeira é complicada.” Ele tem uma pequena bolsa para se manter no seu primeiro ano em Amsterdã. Mas tem encontrado dificuldades com o visto. “É que, para conseguir a liberação do passaporte, você precisa comprovar que tem pelo menos 15 mil euros para o período de um ano, garantia de que você vai poder estudar sem ter que trabalhar. E eu não tenho.”

Lucas começou a estudar música com o pai em Piracaia, no interior de São Paulo. Músico amador, foi ele que apresentou ao filho o clarinete e, depois, o saxofone. “Fui pegando gosto pela coisa, até porque tinha facilidade.” Entrar para a Orquestra Jovem Tom Jobim foi um marco. “De repente me vi no palco do Memorial da América Latina, tocando com o maestro Roberto Sion. E percebi: é isso que eu quero fazer.” A alegria da lembrança logo vira apreensão com relação ao futuro. “Preciso do dinheiro ou de alguém que tope ser um fiador, comprovar que tem esse valor”, explica. (Quem quiser ajudar, pode clicar aqui)

 

música clássica

Camila Ribeiro

Ouvindo música, no carro do pai

“Não tenho nenhum familiar nem amigos que estudavam música. Contudo, meu pai sempre gostou de música erudita e essa era minha trilha sonora das idas e vindas da escola e outras atividades.  Creio que meu contato com a música erudita foi esse, e meu  interesse em estudar algum instrumento nasceu aí”, conta a violista Camila Ribeiro, de 21 anos. Ela começou os estudos na Escola de Música de Brasília; entrou na UnB, mas depois de um ano mudou-se para São Paulo, onde passou a ser orientada por Renato Bandel. Em 2013, entrou para a Orquestra Jovem do Estado. E agora se prepara para o mestrado na Academia Nacional de Música da Dinamarca.

“A experiência de viajar para Europa  com a orquestra foi o pontapé inicial para que eu me encorajasse a voltar para Europa sozinha para realizar uma prova de mestrado. Poder enxergar com meus próprios olhos a realidade musical na Europa me motivou muito a querer conhecer melhor a cultura europeia e a estudar lá”, diz. E qual a expectativa para a viagem? “Espero dar passos largos em direção à minha profissionalização musical. Quero aproveitar muito o professor Rafael Altino e a Academia Nacional de Música da Dinamarca, crescer muito musicalmente e tecnicamente. Além de toda questão musical a ser aproveitada, ter a oportunidade de conviver numa outra cultura irá me acrescentar muito como pessoa. Conhecer outros parâmetros e realidades nos faz rever nossos próprios conceitos e assim crescer.”

 

música clássica

Marcelo Politano

Criação

Na lista dos jovens músicos em direção à Europa, falta apenas o compositor. Trata-se de Marcelo Chacur Politano, de 26 anos, que também tem a Holanda como destino: fará mestrado no Conservatório Real de Amsterdã. Ele se formou na Unicamp e, desde 2012, recebe orientação, na Emesp, de Rodrigo Lima e Julio Cesar Figueiredo. “Comecei em casa quando ainda era muito novo, incentivado pelo meu pai, que é músico também, e pela minha mãe que estava sempre cantarolando algo comigo. Em 2007 entrei na Unicamp no curso de música popular e foi durante a graduação que comecei a compor e a me interessar mais pelo estudo da composição.  Passei então a estudar piano e a assistir as aulas dos professores da composição, principalmente dos professores Silvio Ferraz e J. A. Mannis. Essa transição se deu naturalmente e em 2010 consegui uma bolsa de estudos para estudar composição em Montreal durante um semestre com o prof. Georges Dimitrov. Voltei de lá entusiasmado também com outras práticas criativas, como a improvisação livre, e em 2012 eu e amigos da graduação e pós graduação formamos um grupo de improvisação e laboratório de composição chamado Obra Aberta, que ainda existe, e que foi também importante em minha formação musical”, diz.

E como ele define a sua música? “Já participei de grupos que faziam desde música folclórica até música experimental, passando pela música de câmara e pelas inúmeras gigs na noite. Acredito que minha música possui um pouco destas experiências musicais e sua particularidade está na mistura de instrumentos de outras culturas anexados à palheta sonora já conhecida. Estas mesclas criam novas possibilidades de cor e timbre que muito me interessam. Em última instância tenho como inspiração a natureza e vejo que a intuição e as associações decorrentes dela são essenciais em minha composição.” Nesse sentido, ele diz se identificar bastante com a música feita na Holanda atualmente. “Principalmente com a música de compositores como Ton de Leeuw, Wim Hendereickx e Joël Bons, e por conta disso estou muito entusiasmado. Espero me desenvolver artisticamente e profissionalmente nos próximos dois anos e confesso estar ansioso para trabalhar junto ao Atlas Ensemble, grupo residente do conservatório e que admiro muito. Terei ainda a oportunidade de trabalhar com a orquestra do conservatório e com inúmeros ensembles de música contemporânea, como o Nieuw Ensemble. Acredito que passarei por experiências desafiadoras e muito enriquecedoras.”