Sátira mordaz ao mundo da ópera

Sátira mordaz ao mundo da ópera

João Luiz Sampaio

22 de novembro de 2010 | 15h00

O compositor Benedetto Marcello

A técnica refinada e um ou outro avanço formal, revelados em um punhado de peças de caráter religioso, não foram capazes de dar ao veneziano Benedetto Marcello (1686-1739) muito mais que notas de rodapé na história da composição. A verve, no entanto, fez dele o autor de um dos mais importantes textos sobre o gênero operístico, “O Teatro à Moda” (Editora da Unesp), peça de tom satírico que acaba de ganhar tradução para o português. Os sentidos do texto estão intimamente ligados ao momento e ao local em que ele surge. Como anota na apresentação a musicóloga Ligiana Costa, também responsável pela tradução, “O Teatro à Moda” aparece pela primeira vez em 1720 na Itália. Veneza, então, era um centro importante no desenvolvimento do gênero lírico: para se ter uma ideia, de 1642 ao fim do século 17, 11 teatros de ópera foram construídos na cidade, o que levava a um total de 18 palcos que abrigaram, em pouco mais de quarenta anos, 450 espetáculos. Compositor, advogado e escritor, Marcello viu de perto, portanto, o nascimento de uma cadeia complexa de produção, dos cantores aos empresários, passando por músicos, cenógrafos, figurinistas, diretores de teatro e assim por diante. É este universo particular seu principal tema. O texto é composto de orientações aos diversos envolvidos em uma montagem. À diva, por exemplo, recomenda que chegue sempre atrasada aos ensaios, aos quais, aliás, deve faltar ocasionalmente; sobre os cantores bufos, avisa: “Eles acelerarão e atrasarão a música por conta das palhaçadas em cena e, quando se desencontrarem do andamento, porão a culpa na orquestra”. Os compositores ganham capítulo à parte: “Não será nada mau se o maestro moderno tiver sido por muitos anos violinista, violista ou copista de algum compositor famoso, roubando deste e de outros ideias de ritornelos, sinfonias, árias, recitativos…” Ou então: “Se for necessário trocar as cançonetas, nunca as trocará por algo melhor. Se alguma ária não fizer sucesso entre o público, dirá que era uma verdadeira obra-prima, mas que foi ‘assassinada’ pelos cantores e não compreendida pelo público.” Há uma infinidade de frases preciosas – e não passa despercebida, acompanhando as temporadas recentes, a atualidade de muitas delas. Mais importante, porém, como sugere Ligiana, talvez seja entrever a maneira como o texto de Marcello ajuda no estabelecimento de estereótipos marcantes do universo da ópera. Não apenas porque ajuda a compreender as suas peculiaridades enquanto gênero mas, principalmente, porque mostra como desde o início fez parte dele a autoironia.

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