Santo Giulini

Santo Giulini

João Luiz Sampaio

28 de janeiro de 2011 | 15h31

Em uma eleição realizada ao longo do ano passado, a Universal convidou ouvintes de todo o mundo a escolher suas gravações preferidas das nove sinfonias de Mahler. O resultado foi uma caixa, The People”s Edition, reunindo as vencedoras. Claudio Abbado, Leonard Bernstein, Georg Solti – na lista estavam muitos dos mahlerianos habituais, com uma exceção: entre as inúmeras gravações da Sinfonia n.º 9, a escolhida foi a do italiano Carlo Maria Giulini. Pouco depois, em dezembro, a Deutsche Grammophon lançou uma caixa com as gravações do maestro à frente da Filarmônica de Los Angeles – e, no começo deste ano, mais dois registros, no campo da ópera – Don Carlo, de Verdi, e Don Giovanni, de Mozart -, oferecem uma reavaliação involuntária do legado do maestro, morto em 2005. Giulini formou-se em regência em 1941. Durante a guerra, desertou do Exército, opondo-se ao fascismo, o que lhe rendeu nove meses escondido no porão da casa de um tio de sua mulher. Após o fim do conflito, regeu a Orquestra da RAI em concerto ouvido por Arturo Toscanini, que terminou de formar o jovem regente. De certa forma, ele representou o elo entre duas gerações de regentes italianos. Além de Toscanini, aprendeu seu ofício com lendas como Antonino Votto e Victor de Sabata – e abriu caminho para Claudio Abbado e Riccardo Chailly, seus alunos. Sensível ao que chamava de mecanização da interpretação, defendia a ideia do músico como intérprete de algo maior que ele próprio. “A música é um gesto de amor”, disse certa vez. E exigia, assim, contemplação e reflexão antes de subir ao palco. Essa atitude rendeu a ele uma aura quase religiosa, que um crítico italiano traduziu espirituosamente nos anos 60 ao apelidá-lo de “São Carlos das Sinfonias”. Por tudo isso, quando morreu, em 2005, aos 91 anos, Giulini foi exaltado por obituários em todo o mundo como o símbolo do respeito ao compositor. É fato que sua regência sempre evitou os efeitos superficiais – e que a escolha pela fidelidade à partitura é em si mesma uma escolha pessoal do intérprete. Ainda assim, como ser o sacerdote das intenções de um compositor e, ao mesmo tempo, oferecer leituras pessoais para suas obras, reconhecíveis em muitos casos à primeira audição? Não seria essa a questão fundamental de todo intérprete? Ao menos no mundo musical, o foi durante boa parte do século 20. E se aprendemos alguma coisa é que respostas amplas e irrestritas são improváveis e desnecessárias. Interessa mais, afinal, investigar o caminho encontrado por cada intérprete nesse processo. E a enxurrada de gravações permite justamente isso com relação a Giulini. O andamento lento, pesado, de sua Eroica em Los Angeles; as flutuações de dinâmica na Sinfonia n.º 3 de Schumann; a escolha de cantores tanto em Mozart como Verdi. Nas dezenas de horas de grande música presentes nos registros, há sugestões mínimas de liberdades com relação ao texto original, encontradas nas frestas da partitura. É por isso que nenhuma delas parece se distanciar do compositor – todas se inserem, na verdade, em um contexto amplo, no qual as ideias originais não são apenas ponto de partida mas, sim, companheiras ao longo de toda a execução. Há elementos comuns em todo esse repertório. A partir desse credo, o que Giulini oferece são insights preciosos, que se dão a partir de um ouvido especialmente atento às nuances, às sutilezas rítmicas e, especialmente, às texturas. A introdução da Abertura Manfred, de Schumann, mal comparando, soa como música em 3D; a clareza em Ravel e Debussy surpreende do início ao fim. Já no Mahler, o resultado é uma tensão constante, mas jamais urgente: força e intensidade, fica claro, não são parentes nem distantes, e essa percepção faz muita diferença em uma música que opõe a todo momento crise e resolução.
Nas óperas, o conceito-chave é respiração. Mais do que nas sinfonias, é aqui que o rigor nos andamentos revela, talvez paradoxalmente, uma liberdade enorme nas linhas de canto. Disciplina e ordem, parece nos dizer Giulini, não impedem o caos – antes, permitem às emoções humanas que soem em toda a sua complexidade e riqueza, multiplicando no ouvinte sensações e significados possíveis. No dueto final do Don Carlo, por exemplo, a sinergia entre as texturas orquestrais e as melodias do canto flagra de forma contundente a transformação pela qual a música de Verdi passa naquele momento, em direção a uma maior expressividade dramática. E comove. Tudo isso leva a um paradoxo estimulante. A percepção do grande repertório como algo imutável deu força à teoria de que a música clássica perdeu sua relevância justamente no momento em que Beethoven e companhia tornaram-se peças de museus a serem visitadas com reverência e medo. O que as interpretações de Giulini fazem, no entanto, é tirar o pó de cima dos autores e reinventar suas obras para os ouvidos de nossa época, mostrando sua atualidade e a capacidade que têm de mexer com nossa sensibilidade.

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