Salvem as canções!

João Luiz Sampaio

29 de junho de 2009 | 12h41

Ontem cedo, antes de vir para a redação, dei uma passada no Teatro São Pedro para assistir à meio-soprano Adriana Clis interpretando as Kindertotenlieder, de Mahler, com a Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Fiquei muito impressionado. Eu já sabia da relação dela com a música de Mahler – há alguns anos, fizemos em Campinas um recital com os “Rückert Lieder” e seleções dos “Knaben Wunderhorn”, com acompanhamento ao piano de Gilberto Tinetti. Mas o que ela mostrou ontem foi um amadurecuimento muito grande, mais atenta às sutilezas e à riqueza de coloridos das linhas criadas pelo compositor. Em especial na segunda canção, “Nun seh’ich wohl, warum so dunkle Flammen”, a voz se combina de maneira muito delicada e, ainda assim, carregada de drama, ao tecido orquestral, dele emergindo ou nele afundando. E isso só acontece porque Adriana Clis demonstra profundo controle da tessitura das peças, criando arcos que fogem da interpretação mais óbvia e rasteira. As “Kindertotenlieder” são fundamentais para a compreensão do ambiente musical de Mahler. Ele as escreve envolvido em uma série de dramas pessoais, mas cria uma orquestração direta, clara, limpa. Todo o drama está ali– e a interpretação ideal é aquela que entende não serem necessários exageros: a emoção está em cada compasso, num crescendo que desagüa na esperança, mesmo que melancólica, da sequência final. Nesse sentido, foi interessante a regência de João Maurício Galindo, conduzindo os músicos da orquestra com segurança. Há, sim, problemas, em especial nos metais. Mas o fato de uma orquestra jovem enfrentar o desafio de uma partitura como essa é auspicioso. É preciso encarar a música de frente. Envolver-se com ela. Não há outra maneira de aprender.

E aí me peguei pensando. O trabalho de Adriana Clis no concerto de ontem se somou à lembrança recente de dois recitais de canções que acompanhei em junho, em Campinas, com as sopranos Manuela Freua (Villa-Lobos e autores franceses, acompanhada da pianista Dana Radu) e Edna D’Oliveira (Villa-Lobos, com o violonista Sidney Molina). Nos três casos, é claro o envolvimento dos intérpretes com o repertório apresentado, que aponta na direção de um estudo específico direcionado às canções. Por que, então, não há um só espaço regular em nossas temporadas para as canções? Falo do lied, das melodies francesas, dos cancioneiros americano e russo – e do brasileiro, que está em pé de igualdade com o que de mais interessante se fez, e se faz, mundo afora. Por que associamos a voz apenas ao repertório operístico? Por que, quando se resolve fazer recitais, é sempre com artistas estrangeiros? A Estadualzinha decidir fazer as “Kindertotenlieder” é, de alguma forma, um tapa nas nossas orquestras profissionais que, em sua maioria, passam ao largo desse repertório (lembro apenas da Osesp, já há alguns anos, e da Sinfônica de Brasília, com ciclos de Mahler, como exceções). Há cantores, há público. E um teatro como o São Pedro, por exemplo, ou a Sala Promon, intimistas, seriam perfeitos para a criação de uma série regular dedicada a esse repertório.

Quando vai haver interesse dos nossos programadores?

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