“Salomé”, novos ares em Belém

“Salomé”, novos ares em Belém

João Luiz Sampaio

04 de dezembro de 2012 | 16h12

BELÉM – Ao longo dos séculos, a história de Salomé, narrada pela primeira vez no Velho Testamento, ganhou cores das mais diversas – e, quando chegou às primeiras décadas do século 20, pelas mãos do compositor Richard Straus, a partir da peça de Oscar Wilde, o encontro da jovem princesa com o profeta João Batista se tornou um conto carregado de sensualidade sobre a relação próxima entre desejo e morte. Proibida pela censura de estrear em Viena, subiu ao palco em Dresden, provocando espanto na sociedade, ao mesmo tempo – e talvez por isso mesmo – em que dialogava de maneira muito contundente com as transformações comportamentais pelas quais ela passava desde o fim do século 19.

Entre os últimos suspiros do romantismo e o flerte com os ares da modernidade, “Salomé” transformou-se em símbolo da estética de Strauss – e é, pela complexidade da partitura (seja no que diz respeito à escrita orquestral, seja no tratamento dado às vozes), um desafio a qualquer companhia que se proponha a levá-la ao palco. Não por acaso, foi escolhida para encerrar a edição deste ano do Festival do Theatro da Paz, em Belém. Em sua décima primeira edição, a segunda sob a direção do tenor Mauro Wrona, o festival teve sempre como marca a aposta em títulos consagrados e familiares – “Macbeth”, “Tosca”, “A Flauta Mágica” e “Carmen” são apenas alguns dos exemplos que simbolizam essa trajetória. Nesse sentido, a entrada no repertório germânico com uma obra-chave do gênero no século 20 é simbólica, e sendo tratada como o começo de um novo momento de ousadia na programação.

Na récita apresentada na noite de segunda-feira, a companhia deu provas vivas de amadurecimento. Do ponto de vista cênico, a montagem tem como característica principal uma organicidade que dá ao resultado final um impactante senso de conjunto, do cenário da estreante Duda Arruk à luz do veterano Caetano Vilela. O diálogo desses elementos, e o jogo de sombras e belos achados que sugere, cria um pano de fundo sólido sobre o qual pode atuar a cuidadosa direção de atores de Mauro Wrona – momentos como a “Dança dos Sete Véus” ou a longa cena final, em que Salomé contracena com a capeça decepada de Iokanaan (nome dado por Wilde ao personagem inspirado em João Batista), são carregados de uma tensão em direção ao clímax (a nudez e, no segundo caso, o beijo) que, de resto, consegue ser mantida ao longo de todo o espetáculo.

Já a leitura musical do jovem maestro Miguel Campos Neto, que trabalhou como assistente de Luiz Fernando Malheiro no Festival Amazonas, em Manaus, é, antes de mais nada, a sugestão de um grande talento potencial a ser desenvolvido – ele dá ritmo teatral e fluência ao espetáculo e sabe recriar a linguagem musical específica dos personagens principais, mas deixa escapar algumas sutilezas da orquestração em momentos importantes, nos quais a orquestra soa forte demais. Como Salomé, a holandesa Annemarie Kremer cresce ao longo do espetáculo, oferece uma cena final impactante mas, no geral, o elenco masculino – o Herodes do tenor Paulo Queiroz, em uma das grandes atuações de sua carreira, o João Batista do barítono Rodrigo Esteves e o Narraboth do tenor Giovanni Tristacci, em especial – sai-se melhor no conjunto.

A sensação final é de que o passo dado pelo festival não foi maior do que a perna – e isso se deve à construção de uma estrutura refinada ao longo dos anos, desde o surgimento do evento, pelas mãos da São Paulo Imagem Data. Ainda assim, alguns desafios permanecem – basta lembrar que a Sinfônica do Theatro da Paz, formada por cerca de cinquenta músicos, precisou ser preenchida com artistas de outros centros do País para atingir o tamanho (e a exigência técnica) requisitadas pela partitura de Strauss. Um novo capítulo, no entanto, se iniciou – gerando expectativa para a edição do próximo ano, quando devem subir ao palco dois monumentos do teatro de ópera do século 19: “O Navio Fantasma”, de Richard Wagner, e “Il Trovatore”, de Giuseppe Verdi.

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