Sala Minas Gerais será inaugurada hoje com sinfonia de Mahler

Sala Minas Gerais será inaugurada hoje com sinfonia de Mahler

Nova casa da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais dá forma a um polo sinfônico que se desenvolveu em Belo Horizonte nos últimos anos. Como ela vai funcionar? Quais os desafios?

João Luiz Sampaio

27 de fevereiro de 2015 | 16h15

salaminasgerais

BELO HORIZONTE

Foi preciso recorrer ao arquivo do jornal, mas lá estava: junho de 2009, em uma churrascaria de Copacabana, um rápido encontro com o maestro Fábio Mechetti. Ele acabara de reger um concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais na Sala Cecília Meireles, dentro da programação da Folle Journée. O grupo tinha, então, pouco mais de um ano. Mas o potencial do trabalho chamou atenção de público e críticos – e Mechetti falava da importância, naquele momento, de prestar atenção aos clássicos formadores de sonoridade (como o Mozart do concerto carioca), mas sem perder a ambição de explorar um repertório amplo, diversificado e exigente. “Isso é fundamental em um momento em que a orquestra está buscando uma personalidade”, disse.

O concerto no Rio esteve rodeado de muita expectativa: que nova orquestra era aquela, sobre a qual notícias entusiasmadas começavam a chegar de Minas? Bom, seis anos depois, a Filarmônica já se colocou como referência importante da música brasileira. Virou lugar comum dizer que é, depois da Osesp, nossa principal orquestra – é verdade, mas com a ressalva de que, em desempenhos recentes, tem mostrado, em certos repertórios, refinamento ainda maior do que a “concorrente” paulista. Tem interpretado um amplo leque de autores , flertou com a ópera, já atrai para Minas grandes maestros e solistas convidados. E, agora, ganha uma casa, a Sala Minas Gerais, que será inaugurada hoje com a Sinfonia nº 2 de Mahler (escrevi aqui sobre o prédio em novembro, quando visitei as obras).

Ter uma casa própria significa, de cara, uma ampliação considerável no número de concertos: em 2015, o aumento é de mais de 100% com relação a 2014. Mas não se trata apenas de quantidade. O maestro Mechetti tem deixado claro em entrevistas que esta é a hora de refinar ainda mais a sonoridade do grupo, com um espaço físico que vai permitir, por exemplo, a realização de uma integral das sinfonias e concertos para piano de Beethoven. “A sala nos oferece a possibilidade de fazer algo que eu venho adiando, que é o aprimoramento técnico do conjunto. Conquistamos muito em pouco tempo. Mas há detalhes, aspectos da sonoridade, que você só consegue trabalhar de verdade quando pode ensaiar e tocar na mesma sala, com regularidade”, me disse o maestro em novembro do ano passado.

O significado da criação de uma nova sala de concertos, no entanto, é maior do que o simples aumento no número de concertos e suas consequências artísticas. O projeto da nova sala se insere em um novo complexo arquitetônico que quer ser referência na vida cultural da cidade. Como a orquestra se encaixa neste contexto? Em que sentidos ter uma casa própria vai alterar – e reforçar – a relação da filarmônica com a comunidade e com o seu público? Que tipos de projetos poderão ser desenvolvidos? Se a combinação Osesp e Sala São Paulo foi capaz de redefinir o cenário musical brasileiro, o mesmo se espera agora da filarmônica e sua Sala Minas Gerais. O teatro dá forma a um novo polo sinfônico que tem se desenvolvido na cidade.  Que cara ele vai ter daqui em diante? Será um desafio rico, ao qual valerá à pena prestar atenção. Mas, antes, tem o Mahler. Depois conto como foi.

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