Rompendo o silêncio

Rompendo o silêncio

João Luiz Sampaio

18 de fevereiro de 2014 | 19h01

Em uma carta aberta publicada no seu Facebook, a pianista venezuelana Gabriela Montero acusou o maestro Gustavo Dudamel de conivência com o regime de Nicolas Maduro. Dudamel, vale lembrar, é a estrela do El Sistema, projeto educacional venezuelano criado há quase 40 anos, ou seja, antes da chegada de Hugo Chávez ao poder – coube ao ex-presidente, no entanto, uma aproximação com o projeto, que foi levado, durante sua gestão, para as asas do Escritório da Presidência da República Bolivariana da Venezuela.

Gabriela é contundente ao falar de um concerto regido por Dudamel no fim da semana passada. “Ontem (dia 13 de fevereiro), enquanto dezenas de milhares de manifestantes pacíficos expressavam sua frustração, dor e desespero com a situação de caos cívico, moral, econômico e humano da Venezuela, e enquanto as milícias armadas governamentais, a Guarda Nacional e a polícia atacaram, mataram, feriram, prenderam e eliminaram várias vítimas inocentes, Gustavo Dudamel e Christian Vazquez regeram a orquestra num concerto celebrando o Dia da Juventude e os 39 anos do Sistema. Tocaram enquanto seu povo era massacrado”. Em resposta, Dudamel disse que seu projeto fala de “paz, união e amor”. “Com nossa música e nossos instrumentos nas mãos, dizemos um rotundo não à violência e um sim contundente para a paz.”

Montero tem sido crítica feroz do governo venezuelano. Assim, a novidade de sua carta é outra: pela primeira vez, Dudamel é criticado abertamente por seu silêncio sobre os rumos políticos de seu país e chamado publicamente a se pronunciar sobre o assunto. Pouco importa aqui de que lado se está perante os recentes acontecimentos na Venezuela – e se é possível, em um momento de turbulência como o atual, fazer análises que deem conta completamente do processo. Há uma outra pergunta, importante, por trás do que diz Montero: é possível estar ligado ao ambiente político e, ao mesmo tempo, permanecer neutro perante ele?

Dudamel parece acreditar que sim. Ao menos, esta tem sido a tônica das suas declarações sobre o tema. Estive com ele duas vezes nos últimos anos, em 2011 e em 2013, quando o maestro esteve no Brasil para concertos com a Sinfônica Simón Bolívar, principal grupo do Sistema. Entrevistá-lo exige paciência e persistência. O maestro não gosta de falar com a imprensa – e, mesmo quando uma conversa é marcada, sua assessoria coloca algumas condições. A principal delas, sempre de modo velado: Dudamel não gosta de falar em política. Quando, no ano passado, contrariando a orientação recebida, perguntei a ele sobre como via o país após a morte do Chávez, afirmou que, em primeiro lugar, “é uma maravilha que a música clássica seja um emblema de um país”. Em seguida, disse que era preciso separar “política” de “preocupação social”. “O que faz do Sistema um projeto único é o modo como articula arte e preocupação social.” E concluiu: “Não somos uma fábrica de músicos mas, sim, de cidadãos.”

Ou seja, Dudamel não respondeu à pergunta. Ainda assim, colocou uma outra questão importante. Seja para o músico, seja para o público, a arte pode sugerir maior conscientização a respeito de si próprio, do entorno em que se está inserido e do papel que é possível desempenhar na sociedade. Em outras palavras, a arte não diz em que alguém deve acreditar mas, sim, reafirma nas pessoas o direito de ter suas crenças.

Nesse sentido, ao não emitir opiniões sobre a situação política na Venezuela, Dudamel não estaria indo contra aquilo que prega, ou seja, contra seu direito de cidadão? O silêncio é um direito ou sinal de conivência? Deixar-se usar pelo regime não é uma forma de manifestação política? Ou a capacidade de manter a atividade da orquestra durante diversas gestões, sobrevivendo a trocas governamentais, é uma maneira de atestar que a política passa e a arte e o cidadão ficam? Nessa história parece haver mais perguntas do que respostas – mas já é algo importante que elas sejam feitas em um mundo como o clássico, que, apesar de viver do som, não hesita a se esconder atrás do silêncio quando a conversa fica espinhosa demais.

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