Rieu: ai se ele te pega…

Rieu: ai se ele te pega…

João Luiz Sampaio

29 de maio de 2012 | 12h53

Foto de Daniel Teixeira/AE

São cerca de quarenta gravações, trinta milhões de CDs e DVDs vendidos e turnês que já o levaram, com sua orquestra, a cerca de 30 países. Os números em torno do violinista holandês André Rieu são hiperbólicos. Ele faz hoje o primeiro dos 24 shows programados para o Ginásio do Ibirapuera. Chega ao País com sua mistura de sucesso: valsas vienenses, trilhas de filmes e trechos de obras famosas, entoadas por sua orquestra e por um time de cantores, todos comandados por ele e seu Stradivarius de 1764. No domingo, para divulgar a turnê, foi ao programa do Faustão. E tocou “Ai Se Eu Te Pego”, hit de Michel Teló. Pelos números e pela descontração com que lida com o repertório, é vendido como o “popstar da música clássica”. E, na lógica de seus fãs mais ardorosos, isso faz dele um símbolo do processo de popularização do gênero.

Tal raciocínio tem sido repetido à exaustão desde que foi anunciada a vinda de Rieu ao Brasil. Mas alguém poderia me explicar para que serve um “popstar da música clássica”? Ele forma público? Tenho minhas dúvidas. Primeiro, porque os ingressos para ver André Rieu são mais caros do que qualquer concerto ou ópera realizado na cidade – podem chegar a R$ 600. Depois, a experiência mostra que esse tipo de espetáculo cria público apenas para si próprio. É um excelente negócio: agrada porque assume a suposta e preconceituosa aura de sofisticação acoplada ao universo clássico e, ao mesmo tempo, capitaliza a “vanguarda” de apresentá-lo em uma roupagem “espontânea, menos engessada”, fazendo jus à criação dos grandes compositores.

É indiscutível que o universo clássico carece de uma maior percepção da importância de saber se vender em um mercado cultural competitivo. Orquestras e teatros de ópera precisam se abrir para as inovações tecnológicas, para novos mecanismos de contato com o público. O desafio é quebrar a barreira invisível que se colocou entre eles e as plateias e mostrar que na obra dos grandes compositores há elementos que possibilitam um diálogo estimulante com as questões do nosso tempo. Não é uma conquista fácil, e envolve diversas questões; mas daí a acreditar que os arranjos primários e a execução musical sofrível da trupe de Rieu são a solução há uma distância que apenas um jogo eficiente de marketing consegue encurtar.

E, convenhamos, deixando de lado, por um instante que seja, os negócios, o que o tal “mundo clássico” ganha com uma versão orquestral de “Ai Se Eu Te Pego”? E, a propósito, o que ela agrega ao sucesso de Teló? Absolutamente nada. É entretenimento, puro e simples. Não há nada de mal com isso – mas nos poupem da demagogia de pessoas que jamais se deram ao trabalho de ouvir uma só sinfonia de Beethoven e se apressam em afirmar que Rieu é a salvação para o mundo clássico.

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