Revelações de Villa-Lobos: “A Menina das Nuvens” no Teatro Municipal de São Paulo

Revelações de Villa-Lobos: “A Menina das Nuvens” no Teatro Municipal de São Paulo

João Luiz Sampaio

11 de agosto de 2011 | 17h51

As óperas não costumam figurar entre as mais importantes criações de Villa-Lobos. Não se sabe ao certo nem mesmo quantas ele compôs – alguns catálogos falam em dez títulos, mas as partituras de apenas três delas parecem ter sobrevivido: Izath, Yerma e A Menina da Nuvens. Esta última foi escrita nos anos 50 e, depois da primeira montagem, em 1960, só voltaria aos palcos em 2009, numa produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte agora reapresentada no Teatro Municipal de São Paulo.

Não existe outra maneira: é a presença regular no palco que permite a constante reavaliação de uma obra. Se vale para toda a criação de Villa-Lobos, a premissa é particularmente verdadeira no caso de A Menina das Nuvens. Ouvida novamente, dando continuidade ao trabalho de interpretação iniciado pelo maestro Roberto Duarte, responsável pela edição da partitura, em Belo Horizonte, a música soa ainda mais rica em sua expressividade – e ajuda a compreender o Villa da maturidade.

A partitura da ópera, baseada em peça infantil de Lucia Benedetti sobre menina que é levada pelo vento a viver no céu, é desigual. O primeiro ato tem uma orquestração inventiva e o bom desempenho da Sinfônica Municipal revela com transparência a inventividade melódica do compositor, aliada ao domínio da técnica do “falar cantando” que o coloca em diálogo com os caminhos do gênero nas primeiras décadas do século 20, de maneira bastante pessoal, ajudando a colocá-lo no panorama mais amplo da composição no período. No segundo ato, porém, o recurso torna-se cansativo, arrastando o desenvolvimento da narrativa. Até que, no ato final, o grande Villa está de volta, com a inspiração seresteira se combinando a harmonias que evocam a música francesa de Debussy e constroem atmosferas muito bonitas.

Mas, em ópera, a música conta apenas parte da história. Nesse sentido, trunfo tão importante quanto o trabalho de resgate de Duarte é a concepção do diretor William Pereira. Em um ambiente cênico plasticamente muito bonito, ele dá vida às imagens mágicas sugeridas pelo libreto e pela música do compositor – e o resultado é um todo coeso, que parte da música para reinventá-la. Exemplo mais bem acabado disso talvez seja a cena, no terceiro ato, em que a menina das nuvens evoca a ajuda da Lua, sem dúvida um dos pontos altos da escrita do compositor para a voz.

O elenco esteve bem cênica e musicalmente, confirmando os talentos da soprano Gabriela Pacce (Menina), dos barítonos Lício Bruno (Tempo), Inácio de Nonno (Corisco) e Homero Velho (Vento Variável), das meios-sopranos Adriana Clis (Lua), Regina Elena Mesquita (Rainha) e Sílvia Tesuto (Mãe), e do tenor Flavio Leite (impagável como o Soldado) e revelando novas vozes a que se deve prestar atenção: a soprano Fabíola Protzner (Anita) e o tenor Giovanni Tristacci (Príncipe). Uma nota dissonante foi a falta de equilíbrio, em alguns momentos, entre vozes e orquestra, para o que contribuiu os desníveis de acústica que a reforma parece não ter conseguido resolver.

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