Recital de Claudio Cruz na Sala São Paulo relembra Flausino Vale

Recital de Claudio Cruz na Sala São Paulo relembra Flausino Vale

João Luiz Sampaio

25 de março de 2011 | 16h35

A Loja Clássicos da Sala São Paulo promove amanhã um encontro em torno da figura do compositor Flausino Vale (1894-1954). A partir das 11 horas, a jornalista Camila Frésca, autora de “Uma Extraordinária Revelação de Arte”, trabalho excepcional de pesquisa sobre o músico mineiro, vai conversar com o público e apresentar um recital do violinista Cláudio Cruz, que acaba de gravar para o selo Clássicos um disco com os 26 prelúdios para violino solo do compositor. Programa imperdível. Recebi ontem o disco e comecei a ouvi-lo agora de manhã – ele é o complemento perfeito para o estudo de Camila e mais uma prova da qualidade do trabalho de Claudio Cruz. Desde já, dá para dizer que o álbum é referência fundamental no resgate da história recente da música brasileira. Depois volto a ele, com mais calma. Por enquanto, reproduzo abaixo texto sobre o livro, que publiquei no Sabático em janeiro deste ano.

Contam-se nos dedos de uma só mão os compositores brasileiros que têm suas vidas e obras sistematicamente esmiuçadas – e, com isso, perdem-se de vista não apenas ricas trajetórias pessoais como a possibilidade de uma visão mais ampla da criação musical no País, o que torna importante o lançamento de Uma Extraordinária Revelação de Arte, de Camila Frésca, biografia do poeta, advogado e compositor mineiro Flausino Vale (1894-1954). O título do livro vem de uma declaração de Villa-Lobos, encantado com a obra do compositor, que conheceu nas primeiras décadas do século 20. Nascido em Barbacena, de onde se mudou ainda jovem para Belo Horizonte, Flausino é autor da importante série dos 26 Prelúdios Característicos e Concertantes, marco do repertório para violino solo. Ainda assim, há pouco material sobre sua vida e obra. Perdidas em acervos particulares, estão gravações de algumas de suas peças por gigantes como o violinista Jascha Heifetz. Registros mais amplos, no entanto, que olhem sua produção em conjunto, são escassos – a integral dos prelúdios por Jerzy Milewski é tão lendária quanto difícil de encontrar. Ele também é autor do esgotado Flausino Vale – O Paganini Brasileiro que, ao lado de dissertação de mestrado em que o violinista Hermes Cuzzuol Alvarenga analisa as peças, era até hoje a principal fonte de informação sobre o compositor. Restam ainda os textos do próprio Flausino, que resistem apenas em forma de citação em estudos de outros autores. Frésca debruça-se sobre todo esse material – mas o lê com um olhar contemporâneo, ao mesmo tempo em que busca compreendê-lo como parte de uma época específica. Faz isso por meio de uma reconstrução histórica atenta aos mais diferentes aspectos, do contexto cultural da Minas da primeira metade do século 20 ao estabelecimento das principais correntes estéticas na composição brasileira. Nesse sentido, é particularmente interessante a reavaliação que faz dos julgamentos de Cuzzuol Alvarenga em sua análise dos prelúdios. A isso se soma o estudo de fontes primárias, partituras, escritos, poemas, gravações, em que cada detalhe, como a dedicatória de determinada peça, ganha novo colorido, oferecendo pistas na redescoberta da personalidade musical de Flausino. O que torna o livro particularmente interessante, porém, é a sua interdisciplinaridade. O texto, que nasceu com a proposta de análise dos prelúdios, transforma-se em retrato vivo de um músico e sua relação com um ambiente cultural em transformação. Uma anotação no frontispício de uma partitura, detalhes de fotos, cartas, artigos – tudo é tomado em conjunto, em uma metodologia que tem seu ponto alto no momento em que a autora faz com que partituras e poemas do autor dialoguem, aliando rigor e sensibilidade.

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