Rapsódia para Nathalie Stutzmann

Rapsódia para Nathalie Stutzmann

João Luiz Sampaio

27 de maio de 2009 | 19h03

Nathalie Stutzmann na Sala São Paulo/Marcelo Ximenez/AE

Foi paixão à primeira vista. Ou audição. A primeira vez que esteve no Brasil, a contralto francesa Nathalie Stutzmann interpretou no antigo Cultura Artística o ciclo “Wintereisse”, de Schubert. Fiquei maravilhado e corri atrás de tudo o que pude com ela – canções de Schuman (um “Dichterliebe” de sonho), Schubert, Brahms e, claro, os franceses, em especial Fauré, de quem nunca achei interpretação melhor para “Le Secret”, que me foi apresentada pela soprano e amiga querida Manuela Freua. Bom, pouco depois daquele “Wintereisse”, ela esteve em São Paulo para fazer a “Rapsódia para Contralto” de Brahms, com a Osesp regida por Roberto Minczuk. A gravação deste concerto, feita a partir do rádio, é uma das titulares do meu iPod até hoje – outras coisas vão e voltam mas essa peça eu não abandono de jeito nenhum. É baseada no poema “Viagem de Inverno ao Harz”, de Goethe: abra, pede o escritor a Deus, a vista do pobre homem “para as nascentes mil/ que rodeiam o sedento/ no deserto”. E a música acompanha o poeta em sua trajetória da desolução profunda à possibilidade de consolação, invocada por um hino final em nome da esperança. O timbre de Stutzman é muito bonito. A técnica, irreparável: a respiração, o uso inteligente dos vibratos, a construção precisa de dinâmicas. Mas tudo isso de pouco valeria se não estivesse a serviço de uma interpretação que brota não do virtuosismo, mas da compreensão das palavras, que ela lapida com delicadeza. E o interessante é que esse processo de criação vai amadurecendo com o tempo. Estou ouvindo agora a nova gravação que ela fez da peça, com o maestro John Eliot Gardiner e a Orchestre Révolutionnaire et Romantique. O escurecimento da voz parece estar dando a ela um maior leque de possibilidades expressivas. A boa notícia: ela vem ao Brasil este ano, em setembro, para dois recitais dedicados a Schubert, com os ciclos “Die Schöne Müllerin” e “Schwanengesang”…. bom, o CD já mudou de faixa e começou a “Sinfonia nº 2” de Brahms. Já tinha ouvido a primeira e gostado muito. Vou ouvir a segunda e depois falamos mais sobre isso – de qualquer forma, tenho a sensação de que este ciclo de Gardiner dedicado ao compositor trará boas surpresas.

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