Que 2016 termine também na nossa maneira de ver o mundo – e o papel da música

Que 2016 termine também na nossa maneira de ver o mundo – e o papel da música

Os últimos eventos na música clássica nacional trazem de volta, por parte dos governantes, a demonização da cultura e a relativização de sua importância. Lutar contra isso vai exigir uma postura mais ativa por parte do meio musical

João Luiz Sampaio

28 Dezembro 2016 | 09h10

O ano vai terminando soterrado em uma avalanche de más notícias. Em São Paulo, a possibilidade de extinção da Banda Sinfônica e da Jazz Sinfônica; a falta de informações sobre a temporada de 100 anos do Teatro São Pedro; a redução de verbas da Osesp, colocando em risco a temporada programada para 2017; o Teatro Municipal envolto em dívidas, pagamentos atrasados, possíveis cortes de pessoal e muitas dúvidas com relação a ajustes em um modelo de gestão que, até agora, não funcionou. No Municipal carioca, músicos e bailarinos sem receber salários e benefícios – o mesmo vale para os servidores da Sala Cecilia Meireles; a OSB, por sua vez, está falida e sem horizonte à frente – se o grupo ainda existe, é apenas no papel. E, para completar, no Paraná, foi cancelada a Oficina de Música de Curitiba, depois de 34 anos ininterruptos. Desgraças, enfim, para todos os lados – e um clima de desesperança que se reproduz Brasil afora, atingindo orquestras e teatros.

palco

Cada caso carrega aspectos particulares, mas o pano de fundo comum é a crise. Se ela existe e não tem pressa de acabar, natural então nos perguntarmos sobre o que fazer com relação a ela. E a resposta de nossos governantes até agora tem sido bastante elucidativa no que diz respeito à importância que se dá à cultura. Em São Paulo, vemos o desmonte de projetos de longo prazo, que redefiniram a vida musical brasileira, com cortes que superam em muito a diminuição na arrecadação estadual. No governo federal, não convém esquecer que um dos primeiros planos de Michel Temer era a extinção do Ministério da Cultura, estratégia que deu errado, mas não impediu o governo do Estado do Rio de Janeiro de repeti-la há pouco mais de um mês. Em Curitiba, um dos principais projetos de formação musical da América Latina virou “evento”, “luxo” a ser cortado para solucionar os problemas da área da saúde. Os números confirmam que o discurso é de um populismo rasteiro – o jornal Gazeta do Povo mostrou que o dinheiro da Oficina de Música cobriria apenas 5 horas de funcionamento da rede municipal de saúde. O argumento, enfim, não se sustenta. Mas logo depois foi usado também pelo prefeito de Campinas, que apesar de ter recebido R$ 80 milhões para construir um novo teatro, vai pedir autorização para destinar o dinheiro a outros fins – em especial a saúde.

Podemos fingir que são casos isolados. Mas talvez seja mais produtivo aceitarmos de vez que há uma onda no ar de demonização da cultura – ou, no mínimo, de relativização de sua importância. Quando o prefeito eleito de Curitiba diz que é preciso cuidar da dor do povo antes do prazer da música, está evocando uma ideia ultrapassada do que é a cultura. Nos últimos anos, projetos de excelência artística, por si só importantes, passaram a dividir espaço com outros em que o foco é a formação, uma formação que reforça a importância da arte no contexto social de uma comunidade, como ferramenta de transformação da vida das pessoas e de construção de cidadania, de aproximação de realidades e de busca pela inovação. No “prazer da música”, no entanto, renasce a ideia de que a arte é apenas um momento de descontração, uma válvula de escape, um momento de congraçamento de uma elite. Em resumo, um luxo – e luxo, sabemos todos, é o primeiro a ser cortado em momentos de crise. A oposição entre saúde e cultura, ou, para colocar em termos rasos, a discussão sobre se vale mais investir em remédios para população ou em espetáculos artísticos, parece séria. Mas é, na verdade, perversa, pois disfarça o fato de que é dever do estado oferecer serviços de qualidade em ambas as áreas – e de que se o sistema de saúde de Curitiba ou de qualquer outra cidade vive problemas, não é por conta do investimento em cultura, que dificilmente chega a 1% dos orçamentos municipais ou estaduais. A cultura, no final das contas, sofre das mesmas mazelas que outras áreas, como a falta de planejamento ou de uso racional de verbas, a ineficiência de gestão, a corrupção, a ausência de espírito público e de uma política para a área.

Uma política cultural, vale lembrar, é aquela que desenvolve um conceito, uma percepção da importância que a cultura e a arte têm em uma comunidade – e uma estratégia de ação para que esse plano possa ser colocado em prática. Parece simples, mas ela na maior parte dos casos simplesmente não existe. Ainda que aceitemos a necessidade de cortes, basta ver o modo como eles são feitos para nos darmos conta de que não seguem nenhum planejamento específico ou mesmo uma reorientação na condução dos assuntos relacionados à cultura. Olhemos o caso de São Paulo: qual o sentido de investir na formação de uma nova geração de músicos por meio de diferentes projetos se, na outra ponta, fala-se na extinção ou redução da atividade de orquestras que seriam o ponto de chegada para muitos desses novos profissionais?

O corte é frio. Se não há política cultural, a cultura volta a ser evento. Se é mero evento, não precisa ser pensada à luz de uma política de estado. Pronto, podemos ficar anos rodando nesse círculo vicioso. E, enquanto isso, projetos que levaram décadas para se consolidar são destruídos em meses. Pior: em alguns casos, com o silêncio conivente das organizações sociais que deveriam protegê-los. Enfim, à medida em que 2017 se aproxima, lembremos que Rafael Greca não foi o único prefeito eleito em 2016. É preciso olhar com cuidado o que os demais farão assim que assumirem. Cabe a eles, e seus emissários na área cultural, reafirmar o papel da cultura, enfrentando a crise financeira mas também buscando soluções. E à sociedade – e nela incluem-se músicos, ainda que muitos não se sintam assim – cobrar. E lembrar que prefeitos, governadores e presidentes (quase sempre) chegam ao poder porque os elegemos.

Mas não custa pensar também no papel das instituições musicais Brasil afora nesse jogo macabro – e o que elas, por sua vez, entendem como política cultural. Na maior parte dos casos, infelizmente, a compreensão do que é uma política de estado para a cultura é tão pífia quanto a de muitos dos governantes e limita-se à equação “eu preciso de tanto e é o estado que deve me dar o dinheiro, pois o que eu faço é importante”. Talvez não seja mentira. Mas é necessário repensar essa importância à luz do mundo de hoje. Nem todo mundo parece disposto. Justo. Dá trabalho mesmo.

Não chegamos a isso por acaso. O meio musical brasileiro institucionalizou-se ao longo da segunda metade do século 20 a partir de duas prerrogativas bastante arraigadas: a atividade musical deve ser paga pelo estado; e deve focar-se especialmente na atividade sinfônica, ou seja, na construção de grandes orquestras e teatros que, no campo sinfônico ou operístico, compreendem a si mesmas como ilhas de excelência monolíticas, imutáveis, um oásis em meio ao “lixo contemporâneo”.

É aqui normalmente que começa a gritaria contra a sugestão de que o estado não deva pagar pela arte ou de que orquestras e teatros de ópera não sejam importantes ou relevantes. Calma. Questionar o valor de algo não significa necessariamente chegar à conclusão de que esse valor não existe, insisto. E, além do mais, não se trata disso, de relativizar ou implodir essas prerrogativas – mas, sim, de entender os mecanismos pelos quais elas podem ser atualizadas e compartilhadas nos dias de hoje. E de aceitar uma realidade que parece incontornável: esperar que os projetos deixem os auspícios do estado e encontrem subsistência apenas na iniciativa privada, como querem muitos governos, é absurdo; mas, em um contexto de ausência de uma política cultural bem definida, temos que reconhecer que na maior parte dos casos o incentivo estatal está ligado a interesses episódicos de um ou outro governo e, por isso mesmo, a falta de verbas e a relativização dos projetos estão sempre fadados a se repetir. A crise atual é gigantesca, mas não é a primeira e nada leva a crer que será a última.

Há atualmente duas realidades no nosso meio musical. Os projetos de formação criados ou desenvolvidos nos últimos 20 anos propuseram gradualmente uma mudança de paradigma. Se olharmos o trabalho da Escola de Música do Estado de São Paulo, do Instituto Baccarelli ou do Neojiba fica claro que a excelência artística é apenas parte do investimento que se faz hoje em um jovem músico. Formar um artista passou a ser também sugerir a ele uma reflexão, em diálogo com sua experiência pessoal, a respeito do papel da música na sociedade e da busca por novos formatos e ideias que permitam uma difusão mais ampla do fazer artístico. Estamos falando de um músico mais participativo, que entende seu papel na defesa da instituição, na busca de uma nova forma de conexão com um público, um público que precisa ser descoberto e do qual se deve aproximar. É um processo em andamento – mas que já contribui a uma discussão ampla, levada a sério em todo o mundo, a respeito das maneiras pelas quais a música clássica pode dialogar com a sociedade contemporânea. As grandes instituições brasileiras, no entanto, teatros, orquestras, continuam em geral a apostar em um modelo hierarquizado, verticalizado em um mundo em que as relações são cada vez mais horizontais: não cabe mais às instituições apenas “oferecer” cultura, mas compartilhar uma visão de mundo e do valor da arte por meio de diálogo entre as pessoas e suas experiências.

Essa mudança de postura não significa abrir mão da qualidade. E não se trata de pensar em concertos ao ar livre, apresentações para crianças, em ofertas pontuais de master classes. São todas iniciativas importantes, claro, mas é preciso ir além delas e realizar uma troca de paradigma a respeito do papel de uma instituição cultural. Por que não pensar na atividade de uma orquestra sinfônica como o elo entre uma tradição preciosa e uma nova geração que, para vivenciá-la, pede por novos formatos, por um novo tipo de experiência? Por que não pensar em um teatro de ópera não apenas como uma temporada lírica mas como eixo em torno do qual pode girar um projeto mais amplo de difusão da ópera? Por que não pensar no fazer musical como elemento de discussão a respeito da criação contemporânea – e de formas de aproximá-la das pessoas? Por que não entender a música de câmara não apenas como hobby de músicos de orquestras mas sim como veículo de descentralização da atividade musical rumo ao interior? São apenas algumas perguntas cujas respostas podem apontar caminhos interessantes – ainda mais se, ao buscá-las, existir uma aproximação entre as instituições e as novas gerações de músicos e suas novas demandas. Ambos os lados têm a ganhar: para os jovens, encontrar eco nas instituições é confirmar o valor de uma postura inquisitva, do questionamento; para as instituições, por sua vez, dá-se a chance de ter contato com uma realidade nova, ensinando, sim, mas também aprendendo e se forçando a abandonar a postura monolítica das últimas décadas.

Há dinheiro para isso? Com crise ou sem crise, nunca vai haver dinheiro para uma atividade que não se considere importante – estamos falando de uma troca de paradigmas e de revisão de prioridades, fundamental não apenas para a subsistência dos projetos mas como elemento de reafirmação do valor da cultura em tempos de avanço assustador de posturas e posições conservadoras. E, além disso, nem tudo se resume a dinheiro. Há experiências, valores, know-how, informações, dados, tecnologias, repertórios que podem ser compartilhados. Muitas vezes, basta abrir espaço e um diálogo com projetos da iniciativa privada onde também se busca uma renovação. É o tal do espírito colaborativo que, na música clássica, ainda não chegou, com raríssimas exceções. É a formação de uma rede de ação que faça dos projetos Brasil afora mais do que casos isolados e, por isso mesmo, vulneráveis, mas parte de uma corrente que, pela descentralização e pelo caráter que carrega em sua essência, ganha status de uma política informal para a área e pode mostrar a capilaridade do investimento na música clássica e na ópera.

Em sua coluna no Caderno 2, publicada nesta quarta-feira, o historiador Leandro Karnal fala da sua relação com o Don Quixote de Cervantes. Escreve: “Propor utopias para combater a enfermidade do real. Ver gigantes em moinhos arruinados. Amar uma Dulcineia belíssima e especial. Combater o mal, defender os fracos, ler muito, sonhar… Eis parte da fórmula quixotesca. 2017 está esmurrando nossa porta. Espero, no novo ano, não morrer afogado na lucidez rasa de Sancho. Quero um pouco da insanidade sábia do fidalgo. Ser Sancho engorda; ser Quixote, transcende.”

Karnal está falando da necessidade de ler os clássicos não apenas como experiência estética fascinante e fundamental, mas também do quanto eles podem nos ensinar a enfrentar um mundo no qual não nasceram, mas sobre o qual seguem tendo algo a dizer. É um raciocínio que bem poderia valer para o mundo musical. Em entrevistas, palestras, seminários, é comum ouvirmos que o valor da música clássica e da ópera é ser uma constante em um mundo caótico, em frequentes transformações. É uma noção interessante, mas perigosa. Há mesmo algo de reconfortante em se ouvir, em 2016, uma sinfonia composta 200 anos atrás. Mas essa relação não precisa ser de distanciamento da realidade. Mais do que uma válvula de escape, a música pode ser protagonista nesse processo de transformações. Se uma sinfonia de 200 anos atrás ainda nos diz algo é porque carrega valores e ideias que seguem atuais e podem nos ajudar na busca por novos caminhos. Valores e ideais que devem ecoar não apenas na mente do público após um concerto, mas também nas relações humanas e na forma de trabalhar das instituições. A coragem de ousar não é uma traição aos grandes compositores, mas uma homenagem ao patrimônio que eles nos legaram.

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