Quando Leonard Bernstein encantou Berlim

Quando Leonard Bernstein encantou Berlim

João Luiz Sampaio

24 de abril de 2010 | 18h40

bernstein

Berlim Ocidental, outubro de 1979. Noite histórica: pela primeira e última vez, o maestro americano Leonard Bernstein desembarca na cidade para reger a Filarmônica de Berlim. No programa, a Nona Sinfonia de Mahler. Horas depois, mostra uma gravação rara agora remasterizada, sai o resultado: no campo do inimigo, Bernstein bateu o adversário. De goleada. Jogando bonito.

No final dos anos 70, Leonard Bernstein já era lenda viva da regência mundial. Depois de dirigir brevemente as filarmônicas de Nova York e Israel, corria o mundo como convidado de praticamente todas as grandes orquestras do cenário. Praticamente, pois faltava a Filarmônica de Berlim, então comandada pelas mãos de ferro do alemão Herbert von Karajan.

Os dois maestros encarnavam estilos diferentes de regências e, recordistas em vendas de álbuns, foram aos poucos transformados em rivais. Karajan não o convidava para Berlim; por sua vez, Bernstein reinava em Viena, onde desenvolveu relação extremamente próxima com a filarmônica.

Em 1979, no entanto, surgiu o convite, que não partiu da orquestra mas, sim, da direção artística do Berlin Festwochen, evento do qual a filarmônica participava como convidada. Bernstein se disse interessado; midiático, condicionou a viagem a Berlim à doação da renda do concerto a uma entidade beneficente. A Anistia Internacional foi escolhida. E o resto é música.

Na construção da carreira de Bernstein, as sinfonias do austríaco Gustav Mahler (1860-1911) tiveram papel importante. Se não o único, foi um dos grandes responsáveis pelo resgate do trabalho do compositor, que viveu na passagem do século 19 para o 20 e incorporou a mudança da linguagem romântica em direção à modernidade. Sua obra falava de um tempo em rápida transformação, marcado por avanços tecnológicos e incertezas – e, acima de tudo, por um ser humano novo descortinado pela psicanálise. Para Bernstein, Mahler seguia, décadas depois, falando de questões atuais. E, na ausência do compositor, assumiu ele a tarefa de profeta de sua mensagem.

A Nona Sinfonia incorpora muitas das obsessões do compositor – morte, desejo, natureza, fim, recomeço. Nos três primeiros movimentos, Bernstein lê andamentos de maneira pessoal, elege ênfases que reinventam o discurso musical. Corre riscos. No Adagio final, leva as cordas ao limite, dando a sensação de que os instrumentos vão se desfazer. O sentimento de urgência sugere que a profundidade emocional está ligada indissociavelmente à linguagem formal; e parece nos levar aos limites máximos da melodia: ao fim do som, da própria música; e da vida. Na captação ou mesmo no equilíbrio entre naipes, as outras gravações de Bernstein desta sinfonia talvez garantam leituras mais coesas. Mas a energia e a intensidade desse registro ao vivo o colocam como parada obrigatória na compreensão do compositor – e de seu grande intérprete.

(Caderno 2 + Música, 24/4/10)

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