Gergiev, Tchaikovski, Van Gogh

Gergiev, Tchaikovski, Van Gogh

João Luiz Sampaio

31 de janeiro de 2010 | 20h00

PARIS – Há dois dias vi a Orquestra do Teatro Mariinsky de São Petersburgo, na Salle Pleyel, regida pelo maestro Valery Gergiev. Foi um dos momentos musicais mais especiais da minha vida. Gergiev esteve em Paris para três concertos para a integral sinfônica do compositor. Vi o último concerto, com as sinfonias nº 3 e nº 6. É curioso como a força das três últimas sinfonias do compositor acabou eclipsando as três primeiras, que não entraram para o repertório das principais orquestras – e prova disso é que, no concerto, Gergiev não descolava o olhar da partitura. O veredito é injusto? Não sei. A Terceira Sinfonia, por exemplo, é a única escrita por Tchaikovski em tom maior, e tem belos momentos de inspiração melódica, em especial nos movimentos intermediários. Mas não chega perto da imersão em si mesmo que as sinfonias seguintes mostrariam – e, de alguma forma, Tchaikovski virou símbolo disso mesmo, da capacidade de colocar em música o que de mais profundo, caótico e asssustador que ele tinha dentro dele.

A Sinfonia nº6 é um exemplo perfeito. Ele morreu nove dias depois de fazer sua estreia. Sua morte ainda desperta certo mistério – absorto no caos de seus sentimentos, acredita-se que Tchaikovski simplesmente passou a tomar água não fervida para contrair cólera e morrer. A sinfonia, portanto, seria uma espécie de carta-testamento. A sinfonia começa em tons sutis de sombra e desespero – e, quatro movimentos depois, retorna ao mesmo ambiente sonoro, com a música se extinguindo em uma resignação doída. Entre uma coisa e outra, amor, morte, destino, felicidade, dor, tudo ganha versão musical perante nossos ouvidos, às vezes de maneira vertiginosa. Vertigem. Foi essa sensação que a interpretação de Gergiev me despertou. Sua leitura é dramática, teatral, mas em momento algum é banal ou melodramática. A música parece respirar de maneira diferente à luz de suas escolhas de tempo; e as pausas, ainda que curtas, viram momentos angustiantes, de silêncio ensurdecedor. Gergiev é daqueles artistas que impõem autoridade já ao subir ao palco, e tem controle total sobre a orquestra, que reage imediatamente a seus comandos – e gemidos: ele geme realmente alto.

Ainda com o concerto na cabeça, ontem à tarde fui ao Museu D’Orsay ver algumas obras de Van Gogh. Fiquei um tempão observando o “L’Eglise de Auvers”. É incrível ver como a realidade se trasnforma na mente do artista, que a recria em uma obra onde as cores e os traços tem tamanha fluidez que parecem nos dizer que o real não existe senão como representação daquilo que temos dentro de nós. Estou lendo uma seleção das cartas de Van Gogh, em especial as do final da vida, e é fascinante e assustador perceber que há um certo momento, que pode durar por dias, meses, anos, em que realidade e fantasia se misturam indissociavelmente. Talvez aconteça com todos nós. Mas artistas como Van Gogh e Tchaikovski deixaram obras que interrompem o vazio e nos relembram constantemente as muitas faces do que pode ou não ser real.

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