Pianista entra na justiça para tirar crítica negativa da internet

Pianista entra na justiça para tirar crítica negativa da internet

Dejan Lazic não gostou de texto no Washington Post e pediu sua retirada da internet. Mas, afirmar que há uma verdade incontestável na interpretação artística é extirpar a subjetividade que está em sua essência. E, sim, uma forma de censura

João Luiz Sampaio

24 de novembro de 2014 | 19h48

O pianista Dejan Lazic

O pianista Dejan Lazic

A relação entre críticos e artistas nem sempre é das melhores. Em geral, com notáveis exceções, crítica boa é a positiva – e a negativa, bom, que pena que se dê espaço para textos de quem não entende nada do assunto. Tudo bem, faz parte. Mas o pianista Dejan Lazic levou a questão a um novo patamar. No final de outubro, ele entrou na justiça pedindo que uma crítica negativa publicada pelo Washington Post fosse retirada da internet.

A base legal? Uma decisão da União Europeia que, em maio, determinou que qualquer pessoa tem o “direito de ser esquecido” na internet. A premissa: se indivíduos tem direito sobre suas informações pessoais, também devem ter o controle sobre o resultado das buscas a seu respeito na internet. Ou seja, se a pesquisa na internet de seu nome retornar “links inadequados, irrelevantes ou excessivos”, é seu direito pedir que eles sejam excluídos.

Questionado sobre o assunto pelo próprio Washington Post, o pianista afirmou, por e-mail, que “desejar que este artigo seja retirado da internet não tem nada a ver com censura ou restrição do direito à informação” mas, sim, com o “controle da verdade a respeito da imagem pessoal de alguém”.

O pianista afirmou, ainda, que é a favor da atividade crítica, que, segundo ele, “nos torna melhor como sociedade”. Não parece, de verdade, que pense desta forma. Ok, deve ser frustrante ler uma crítica negativa a seu trabalho – ainda mais se o crítico não entendeu aquilo a que o artista se propôs, o que, claro, pode acontecer. Mas, afirmar que há uma verdade incontestável na interpretação artística é extirpar a subjetividade que está em sua essência, além da manifestação de uma intolerância quase infantil ao contraditório.

Não me parece que seja papel do artista definir quem deve ou não escrever sobre seu concerto, e o que deve ser dito, assim como não é função do crítico determinar – ainda que alguns possam ter esta ilusão – quem tem ou não qualidade para se apresentar. A atividade crítica, afinal, ganha sentido quando se faz a partir do diálogo entre a proposta do artista e o modo como ela é interpretada pelo crítico. Esse diálogo pode ser estimulante ou irrelevante, afinal, há críticos bons e ruins, como há artistas bons e ruins. Mas eles são reconhecidos pelos frequentadores de concertos, assim como pelos leitores de jornais, sites e blogs. E sua respeitabilidade – a do artista e a do crítico – será resultado do conjunto de seu trabalho e não atribuída por um simples texto.

No mais, qualquer tentiva de “controle da verdade” tem nome, e é um nome feio: censura.

Em tempo: a decisão judicial só vale na Europa, ou seja, no resto do mundo, quem pesquisar o nome do pianista, vai encontrar, logo de cara, um link para a sua página oficial, um outro para a crítica do Washington Post e, em seguida, para uma penca de sites que o apresentam, de modo pouco lisonjeiro, como “o pianista que entrou na justiça para barrar uma crítica negativa a seu trabalho”. Talvez ele tenha que voltar em breve à corte…

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