Parcerias, tradição, inovação: um novo mundo orquestral

Parcerias, tradição, inovação: um novo mundo orquestral

Em entrevista, o diretor da Orquestra do Concertgebouw, uma das maiores do mundo, Jan Raes fala dos projetos do grupo, da busca por inovação, da quebra da rotina, do papel da arte e da escolha de um novo regente

João Luiz Sampaio

17 de maio de 2016 | 20h25

Diretor geral da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, o belga Jan Raes esteve no Brasil na semana passada para participar da Conferência MultiOrquestra, iniciativa do British Council dedicada a discutir o papel das orquestras no mundo contemporâneo. Falou sobre gestão, conversou com jovens músicos e gestores brasileiros, narrou iniciativas pontuais do trabalho que desenvolve. Mas se há uma mensagem fundamental em seu discurso, trata-se da compreensão da atividade de uma orquestra, por mais fama que ela tenha, como um “work in progress”. Em sua cartilha, tradição não significa engessamento, pelo contrário, é o ponto de partida para a busca de inovação “em um mundo que se transforma muito rapidamente”.

É nesse contexto que se insere o projeto RCO meets Europe, que vai levar a Orquestra do Concertgebouw nos próximos anos a todos os países da União Europeia. Foi sobre ele que conversamos antes do início da conferência, em uma entrevista que acabou tocando em diversos assuntos, do papel da arte em meio a uma crise como a recente onda de refugiados buscando asilo na Europa, até a necessidade de um trabalho colaborativo entre músicos e direção, passando por ações que visam um estreitamento de relações com a comunidade ou pela escolha de um novo maestro titular. Em um ambiente como o da música clássica, que adora se apoiar em certezas e tem dificuldade de refletir sobre si próprio, é interessante ouvir as dúvidas e as apostas de Raes. E perceber paralelos e diferenças com o que temos visto por aqui recentemente – são muitos.

raes

A Orquestra do Concertgebouw está lançando o projeto RCO Meets Europe, que prevê concertos em todos os países da União Europeia. Turnês fazem parte da rotina do grupo, que já percorreu todo o mundo. Qual, então, o conceito essa iniciativa?

Como diretor de uma orquestra, tento sempre pensar no longo prazo. Temos apoio do governo holandês, da cidade de Amsterdã, e eles sempre perguntam a respeito dos próximos quatro anos. Sim, temos experiência vasta em turnês: fazemos, por ano, 80 concertos em Amsterdã e 40 fora. Mas temos pensado no contexto em que esse trabalho se insere. O mundo tem mudado muito – e rapidamente. E a orquestra hoje é bem mais jovem. E temos pensando em conjunto, por meio de comissões, sobre possibilidades de inovação. A tradição pode te matar se significar rotina, se significar esquecer que somos parte de uma sociedade dinâmica e viva. Bom, em 2008, fizemos o primeiro plano; e nos anos seguintes fizemos uma turnê que nos levou a todos os continentes. Aprendemos muito com essa experiência, que criou uma energia diferente no grupo. Em 2012, voltamos a conversar, agora de olho em 2020. E o resultado foi um reflexo sobre a Europa. Nós nos demos conta de que somos filhos da Europa. A polifonia é uma invenção europeia. Ela significa tocar e cantar juntos melodias e harmonias. Esse foi um desenvolvimento profundo e complexo. A música que tocamos é filha disso, a orquestra também. E, em um nível mais simbólico, a polifonia significa ser capaz de sentir empatia, de ouvir o outro. E pensamos: vamos celebrar isso. Estamos sempre botando a culpa de algo em alguém. E nós? Os grandes compositore são resultado do diálogo com os seus vizinhos, de interação, há centenas de exemplos de criadores que são resultado de diferentes influências. Há 25 nacionalidades na Europa. Por que não celebrar essa polifonia e criar pontes em meio a essa diversidade tão rica? Vamos tocar, então, em todos os países da União Europeia, mas não apenas fazer concertos. Estamos buscando modos de nos conectar com os músicos locais, com os conservatórios, criando concertos conjuntos, séries de masterclasses, parcerias. Há países pobre e ricos, mas em todos há talento. Celebrar isso é ir além da política, do dia a dia, é pensar em experiências de vida.

A presença de imigrantes é um tema-chave na Europa de hoje, assim como, recentemente, a presença de refugiados tornou-se um tema urgente. Como um projeto que celebra a cultura europeia pode, ao mesmo tempo, olhar para essa realidade?

O projeto surgiu há 3 anos. Desde então, muita coisa aconteceu. E a questão dos refugiados se tornou urgente, e se misturou a um discurso a respeito da crise econômica dos países europeus. Para mim, a crise econômica é resultado da manutenção de um status quo preservado por uma maneira de educar que não sugere o diálogo, que não nos ensina a agir de forma pró-ativa. Enfim, o mundo muda, e a Europa agora é confrontada com essa questão, não pela primeira vez, mas de maneira intensa. Processos migratórios fazem parte da nossa história também, europeus foram para todas as partes do mundo. O problema está na nossa cara e não sabemos lidar com isso. Não quero ser simplista, mas quando se fala em fechar fronteiras, fala-se em que? O que é holandês? O que é belga? Somos também resultado de misturas. E a Europa precisa aprender a tratar disso, a viver com a diferença sem reagir contra tudo e todos, sem medo de mudanças, sem utilizar os problemas econômicos para manter o diferente distante. Enfim, não há solução fácil. E não é papel da orquestra resolver a questão. Mas, modestamente, acho que provamos nossa capacidade de dialogar com culturas diferentes em nosso trabalho. Em 2013, tocamos pela primeira vez na África e estabelecemos parcerias com orquestras jovens de lá, mandamos todos os anos alguns professores e recebemos também estudantes de músicas africanos. Essas experiências vão mudando a orquestra, os músicos. Ao ver o mundo, eles não se tornam mimados, entendem as mudanças pelas quais passamos hoje.

Ao longo da conferência serão discutidos os “modos de usar” de uma orquestra. Quão importante o senhor acredita que essa discussão é hoje em todo o mundo?

É fundamental estar atento às funções múltiplas de uma orquestras. Não dá, obviamente, para comparar grupos jovens, regionais, orquestras de cidades, orquestras internacionais. São missões diferentes. Mas uma pode aprender com a outra. Sou membro da ISPA (International Society of Performing Arts) desde 2002 e as discussões como essa que tivemos mudaram minha maneira de pensar, de dirigir uma orquestra, de procurar desafios. E me fez entender o papel da educação musical no processo. Assim como do estabelecimento de parcerias. Na Holanda hoje temos uma percepção cada vez mais clara, endossada pela rainha Maxima, de que é direito de toda criança aprender arte. E temos aprendido muito com a metodologia de projetos brasileiros. Há desafios regionais e desafios universais. E as experiências devem ser compartilhadas, iluminado essa diversidade e fazendo aproximações. Para todos hoje é importante se conectar com a comunidade. Nós temos casas sempre lotadas, mas isso também é um perigo, pode levar ao comodismo. A chave é encontrar um missão em vez de focar sempre no impossível. Nem sempre temos o apoio financeiro que merecemos, mas é preciso se conectar com o máximo de pessoas possíveis e, nesse processo, encontrar o dinheiro. A arte musical é o espaço em que nos sentamos quietos, ouvindo, ao lado de outras pessoas. Quando fazemos isso, estamos menos sozinhos. Portanto, o artista, ao fazer música, nos ensina algo; mas ele também precisa ser educado a estar aberto por novas relações com as plateias.

A Orquestra do Concertgebouw escolheu recentemente um novo regente titular, o maestro Daniele Gatti. O mundo musical ainda olha bastante para os maestros, enquanto o senhor defende a importância de celebrar os músicos no dia a dia de uma orquestra. Nesse contexto, como foi a escolha de um novo regente?

Temos sorte em Amsterdã: o público procura a orquestra e não o maestro. O circo da mídia em torno de regentes é algo do século XIX. E acho que há uma nova geração que começa a pensar diferente. A questão é: primeiro a música e, depois, as ferramentas, ou seja, a orquestra e o maestro. É preciso encontrar equilíbrio entre músicos, gerentes, diretores, regentes, público. Se um deles é mais importante do que o outro, quem perde é a música e a plateia. Tivemos um período incrível com Mariss Jansons, uma relação de respeito, de dedicação à música, o que é raro. Não perdemos energia com brigas e desentendimentos. E quando ele me disse que deixaria o cargo, foi hora de começar a pensar em como substituí-lo. Eu já havia passado por essa experiência em outras orquestras, mas cada grupo é diferente, tem sua história, seus fantasmas, frustrações, públicos, salas de concerto, planos de turnê, de gravação. Há muitos indicadores a serem considerados. Quando foi divulgada a notícia de que estávamos procurando um novo maestro, foi incrível a quantidade de empresários e regentes que estavam coincidentemente em Amsterdã, disponíveis para um café (risos). E isso me fez pensar: temos que ser proativos, liderar o processo. Em primeiro lugar, procurei a orquestra. Envolver as pessoas é crucial. E eles, após conversarem, montaram um comitê de 17 músicos para participar do processo. Criei um procedimento, sugeri um perfil. Conversamos e, depois dessas discussões, chegamos a um consenso sobre isso. Levamos as ideias conceituais ao conselho, que também aprovou. E isso é importante: todos precisavam concordar com os princípios que norteariam a escolha, para que ninguém mais tarde pudesse mudar a regra do jogo. A partir daí, viajamos, conversamos, e preparamos uma longa lista, que logo virou uma lista tríplice. Em seguida, houve uma votação secreta entre os músicos que, em sua vasta maioria, escolheram Daniele Gatti. Ao longo de todo o processo, compartilhei o máximos de informações com a orquestra, sempre pedindo que nenhuma delas fosse vazada para a imprensa. E eles respeitaram o pedido, um sinal de maturidade. Gatti nunca nos pediu nada, não foi um dos maestros que se ofereceu para um cafezinho. E se encaixou no que buscávamos. Recentemente, 50 músicos da orquestra se aposentaram, sendo substituídos por outros menos experientes. Por conta disso, queríamos alguém que pudesse orientar a orquestra, ensaiá-la, que aceitasse ser titular de uma orquestra só, sem ficar indo de um lado para o outro. É preciso tempo para encontrar qualidade e frescor no fazer musical, com ensaios de qualidade e, ao mesmo tempo, o desejo de correr riscos durante a apresentação. E queríamos também um maestro que se envolvesse com projetos educacionais, tivesse contato com crianças, com os jovens. Daniele Gatti entendeu e aceitou a proposta.