Paisagens – Diário da Itália (2)

João Luiz Sampaio

29 de maio de 2011 | 19h01

O diário pela Itália ficou pela metade, mas é porque apenas agora começo a organizar um pouco as impressões. O ritmo foi frenético, uma cidade por dia. E, nessa toada, é como se as experiências ficassem sempre em suspenso, quando começavam a se firmar na mente logo eram substituídas por novas sensações. Seguimos do norte ao sul, de Milão à Sicília. Dizer que o caminho revelou uma imensidão de cores e sabores talvez seja repetir apenas o óbvio. Mas, na estrada, entre uma região e outra, um país ia se descortinando – há algo de fascinante no trajeto, às vezes mais do que no ponto de partida ou de chegada. Lembro de, há dois anos, conversar no aeroporto em Guarulhos com o maestro Ira Levin sobre isso. Embarcávamos então para a Coreia do Sul, onde a Sinfônica de Brasília faria algumas apresentações. Enquanto contemplávamos a longa viagem que viria, Ira imaginava como teria sido na época de Liszt esses trajetos, cortando toda a Europa em longas turnês sem a comodidade do avião. Mas, por mais que as agruras da viagem fossem grandes, pensávamos que nos deslocamentos muito era gestado e criado, as sensações se solidificavam, criavam novos estados da mente. A conclusão foi de que o mundo ficou pequeno demais. Nas poucas horas de estrada na Itália, porém, as cidades pareciam um pouco mais distantes – e a capacidade de cada região de manter as suas características originais, seus coloridos, sua relação especial com a natureza, tudo isso surpreende e encanta. E, ao mesmo tempo, te deixa num limbo esquisito. Há pouco tempo para contemplar as paisagens, mas elas, horas, dias depois, tomam a mente de assalto. Enfim, a paisagem campestre da Sardegna…e a culinária!; reencontrar Roma e o seu caos, nas ruas, nas paisagens que se revelam a cada beco; na Sicília, pelas pequenas vilas no pé do Etna, cantarolando na mente a “Cavalleria Rusticana” (aliás, como é interessante a relação da população com o vulcão, ou “A Montanha”, como eles chamam: é como se fosse um companheiro vivo, a quem se teme e admira ao mesmo tempo). Aos poucos vou digerindo tudo isso. E estar acompanhado de artistas plásticos, claro, oferece um outro olhar a tudo. Mas aí já entro no tema da matéria que logo vou ter que escrever para o caderno de Viagem. Antes de ir, no entanto, volto ao tema do último post – Verdi. Em todas as cidades em que passei, encontrei alguma referência a ele; onde havia teatros, suas óperas estavam no programa; onde não havia, como num pequeno vilarejo da Calábria, escutei duas vezes o “Va Pensiero”, do “Nabucco”, no violino de um artista de rua e em uma pequena loja de souvenirs, que repetia sem parar o coro. “E o que eu ouviria?”, me disse o dono, um senhor de sorriso largo, quando perguntei sobre a trilha sonora. De volta a Milão, ontem, antes de embarcar para o Brasil, me perdi no prazer de caminhar pelo centro da cidade e, quando vi, estava na Via Giuseppe Verdi, cortada a certa altura pela Via Arrigo Boito, ao lado da praça Victor de Sabata. Virando a esquina, caí de novo no Scala, onde acabei comprando um volume duplo que reúne toda as cartas e libretos de Verdi. Para nós operários, é como estar em um parque temático a céu aberto, não?

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