Ouviver

João Luiz Sampaio

13 de junho de 2012 | 18h55

“Pois música é, antes de mais nada, movimento. E sentimento ou consciência do espaço-tempo. Ritmo; sons, silêncios e ruídos; estruturas que engendram formas vivas. Música é igualmente tensão e relaxamento, expectativa preenchida ou não, organização e liberdade de abolir a ordem escolhida; controle e acaso. Música: alturas, intensidades, timbres e durações – peculiar maneira de sentir e de pensar. A música que mais me interessa, por exemplo, é aquela que me propõe novas maneiras de sentir e de pensar. Algo assim como ouvir, ver, viver: ‘ouviver a música’, na expressão concentrada do poeta Décio Pignatari.”

J. Jota de Moraes, “O Que É Música” (Brasilense, 1983)

Morreu na madrugada de hoje o jornalista e crítico musical J. Jota de Moraes, vítima de insuficiência respiratória. De 1972 a 2003, foi crítico do “Jornal da Tarde”. Estava internado em um hospital de São Paulo; será velado e enterrado em Itapetininga, sua cidade natal. Ao longo de quase trinta anos de atividade crítica, deixou uma obra invejável e fundamental para que se entenda o cenário musical brasileiro. Convivemos pouco mais de três anos na redação do Grupo Estado. Lembro de algumas conversas no antigo fumódromo, sempre atentas ao que de mais novo se produzia mundo afora, sempre repletas de lembranças de grandes concertos que assistiu – e não sem uma dose de pessimismo com os rumos da música e do jornalismo musical. É possível discordar dele, jamais de sua importância como crítico e professor. Jota “ouviveu” a música como poucos.

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