Ousadia em Baltimore. E por que não em São Paulo?

Ousadia em Baltimore. E por que não em São Paulo?

João Luiz Sampaio

30 de agosto de 2013 | 12h07

A maestrina Marin Alsop e a Sinfônica de Baltimore anunciaram ontem um ousado plano para a criação de novas platéias. Com apenas US$ 25, estudantes poderão comprar assinaturas que lhes permitirá assistir a até 90% dos concertos da temporada – estão excluídas algumas apresentações especiais. Além disso, estão mantidos os ingressos de última hora a US$ 10. As assinaturas garantem ainda acesso a festas e eventos promovidos pela orquestra após algumas de suas apresentações. O “Baltimore Sun” traz detalhes em matéria de ontem, mas o conceito é: atrair os estudantes para a sala de concertos, fazer da orquestra parte de suas rotinas e apostar que os jovens de hoje serão os assinantes do futuro. É um passo gigantesco, de uma orquestra que não se furta da responsabilidade de enfrentar a questão da renovação das platéias.

A questão que me parece fundamental para nós aqui no Brasil, porém, é: se é possível em Baltimore, onde o orçamento está na casa dos US$ 25 milhões, por que não em São Paulo, onde a Fundação Osesp movimenta anualmente cerca de R$ 70 milhões? Mas não se trata de uma questão meramente financeira. Quando foi contratada, imaginou-se que Marin Alsop assumiria em São Paulo um papel de liderança, envolvida com a comunidade musical e trazendo à cidade e à orquestra justamente esse pensamento de vanguarda ao qual ela sempre foi associada. E isso, infelizmente, ainda não aconteceu. Sua gestão, por enquanto, tem se pautado pelo investimento na imagem internacional da orquestra – com turnês e gravações voltadas em especial para o mercado europeu e bancadas, em sua quase totalidade, pelo poder público paulista. É claro: em um mundo globalizado, é importante para qualquer grupo colocar-se de maneira eficiente no mercado internacional. Mas isso não exclui lidar com questões importantes em casa – e a formação de platéias é uma das principais entre elas. No fundo, ao menos no que diz respeito à liderança e à capacidade de apontar caminhos para a Osesp, Marin Alsop não fez até agora muito mais do que seu antecessor, Yan Pascal Tortelier.

E isso é muito menos do que se esperava dela.

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