Osesp, Tortelier: relações delicadas

João Luiz Sampaio

08 de novembro de 2010 | 15h26

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo faz hoje à noite (sábado, dia 6/11) em Zagreb, na Croácia, o primeiro concerto de uma turnê europeia que ao longo dos próximos 20 dias vai levar o grupo a 12 cidades, entre elas Viena e Madri, sob o comando do maestro Yan Pascal Tortelier. A viagem é um passo importante na concretização da reputação internacional da Osesp. Mas, nesta volta ao velho continente (ela esteve por lá em 2007), a orquestra leva na bagagem a indefinição de seu futuro. Críticas ao maestro Tortelier têm dividido os músicos, tornando cotidiana a discussão sobre a contratação de um novo regente-titular a partir de 2012. Ao mesmo tempo, depois de uma conversa com o público na Sala São Paulo, na semana passada, na qual elogiou a orquestra, no dia seguinte o maestro deixou escapar seu descontentamento em uma entrevista à imprensa internacional, quando criticou o excesso de jogos políticos e a imaturidade dos músicos. Tortelier assumiu a orquestra no começo de 2009, substituindo o maestro John Neschling, demitido no final de 2008 por divergências com o conselho da Fundação Osesp. A princípio definido como titular por duas temporadas, Tortelier teve seu contrato estendido até o final de 2011. A contratação, a princípio, foi celebrada por músicos e maestro. Mas, nos últimos meses, ocorreu uma divisão entre os artistas. Em conversas particulares ou mesmo em páginas de redes sociais, alguns músicos têm criticado o trabalho do maestro, reclamando de falta de preparo e envolvimento com o grupo. O primeiro sinal público de alarme foi dado no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em julho, quando a Osesp interpretou o Concerto para Orquestra, de Lutoslawski. Após a apresentação, um músico postou no Facebook o comentário “LUTO-Slawski”; naquele momento, outros artistas externaram descontentamento com a regência do maestro e sua escolha de repertório. Em Campos, Tortelier também esteve à frente da Orquestra de Bolsistas e, durante um ensaio, irritado, disse que não havia músicos entre eles, apenas “crianções” – e o fato de que boa parte da orquestra era formada por alunos de instrumentistas da Osesp ajudou a indispor ainda mais as partes. Coincidência ou não, Tortelier vai reger apenas sete dos 53 programas que a Osesp faz em 2011 – para efeito de comparação, o maestro John Neschling, em seu último ano como titular, regeu treze programas. A direção da orquestra diminui a importância do suposto descompasso entre maestro e músicos; e a presença de 23 regentes convidados no ano que vem é explicada pelo contexto atual do grupo, que ainda busca um titular. Na noite de quinta-feira, dia 28, Tortelier procurou dissipar qualquer sinal de desentendimento ao falar para o público na Sala São Paulo. “O que acontece é uma troca. Trago comigo ideias musicais, assim como a orquestra tem as suas”, disse. E continuou, falando do repertório da turnê. “Há coisas novas para a orquestra, como o Lutoslawski, e peças novas para mim, como o Choros nº 6, do Villa-Lobos. Nesse sentido, posso ajudá-los com Lutoslawski e aprender com eles nos Choros”. No encerramento da conversa, Tortelier foi categórico, elogiando a “ética de trabalho e o potencial da orquestra”: “Ao olharmos a qualidade e o alcance dos programas, vemos que estamos lidando com uma orquestra de nível internacional.” Na manhã seguinte, porém, o maestro mudou o discurso. Em entrevista ao jornalista alemão Jens F. Laurson, obtida com exclusividade pelo Estado, o maestro, após reconhecer a presença de “grandes músicos” no grupo, faz críticas. Diz que sente resistência por parte dos artistas ao seu trabalho e critica o excesso de “jogos políticos” na orquestra que, para ele, ainda está muito ligada ao modelo de trabalho de John Neschling. Procurada pelo Estado, a assessoria de imprensa da Fundação Osesp afirmou que não conseguiu entrar em contato com os diretores do grupo para que comentassem as declarações do maestro.

Leia abaixo trechos da entrevista concedida por Yan Pascal Tortelier:

Era pós-Neschling
“Depois do impacto inicial da minha chegada, todos precisamos fazer ajustes. Eles ficaram animados com a saída de John Neschling, que tinha uma relação autoritária com eles. Mas não estavam preparados para outra relação. Meu sentimento é de que há algo especial que podemos fazer juntos. Mas minha função agora é colocar a orquestra de volta nos trilhos. A turnê é parte desse desenvolvimento, vai catalisar a relação. Acredito que os músicos vão se sair bem na Europa e com o tempo vamos fazer alguns ajustes.”
Dificuldades técnicas
“A questão é que minha relação é tão diferente da que Neschling tinha. A Osesp tinha com ele uma relação de pai e filho, foram acostumados a ter alguém cuidando deles o tempo todo, ajudando a resolver cada problema técnico. Eles precisam entender que não há mais Neschling. Eu espero que respondam às minhas expectativas, mas nem sempre isso acontece, talvez tenha algo a ver com o repertório. Há peças que saem de primeira, outras exigem trabalho maior. Preciso ficar pedindo a eles que ultrapassem as limitações técnicas, quero ir além das notas, mas nem sempre funciona. Espero que sejam profissionais e lidem com as questões técnicas de maneira mais eficiente. Eu parto do pressuposto de que eles estarão prontos quando eu puder ajudá-los a colorir a interpretação. Posso auxiliar em questões técnicas, claro, mas o que quero mesmo é liberdade para fazer música em outro nível. Eu busco uma outra dimensão.”
Relação com músicos
“Há certa resistência, relutância, ou mesmo desconforto. Eu me preparei para reger os Choros porque amo o sabor e o charme de Villa-Lobos e queria construir a minha interpretação dessa obra. Sabia que eles já a haviam gravado a obra, uma boa gravação, aliás, apesar de algumas notas erradas, mas cheguei pronto para criar a minha interpretação. Porém, senti resistência da parte deles e tenho que ficar passando por cima disso, o que não me interessa. Eu sei que posso levá-los a uma jornada rica com essa peça, mas eles não entraram ainda no jogo, sei lá por que razões, instrumentais, psicológicas, não sei. Mas tenho esperança de que dê certo, foi assim com outras peças. Com Ravel, Rachmaninoff, Strauss, funciona bem. Mas há autores que são mais difíceis. Preparar obras como o Concerto de Lutoslawski aqui leva mais tempo do que em orquestras como a Sinfônica de Pittsburgh. Mesmo na Rapsódia Espanhola, que, sendo músicos latinos, você imagina que se saiam bem de cara, demoraram muito para criar os coloridos e sabores da peça. O desempenho com a música deles, e mesmo os Choros, me decepcionou.”
Futuro da orquestra
“Parte do problema é que eles ainda não se assumiram como uma orquestra madura. Houve muito trauma e não estou certo de que eles se recuperaram. E não há sentido em romper com um regime para voltar a ele. Mas os músicos precisam entender que são responsáveis por seu futuro. Se você tem acesso à democracia, precisa atuar dentro dela. Democracia não é dizer queremos isso ou aquilo, gostamos disso ou daquilo. Não se trata de ficar criticando quem toma decisões por eles mas, sim, de assumir responsabilidades. Se a Osesp quer ser um conjunto internacional, tem que jogar o jogo internacional e não se perder em jogos políticos, que são muitos e pelos quais não esperava quando cheguei.”
Jogos políticos
“Há um potencial enorme e eu espero que ele não seja destruído por causa da política. Estou tentando mostrar que, para mim, trata-se de fazer música. Há maneiras diferentes de trabalhar. Neschling fez um trabalho acadêmico com a orquestra. Eu só posso oferecer o meu jeito. E o que quero é fazer música. Sei que há muitos jogos sendo jogados, mas não me interesso por isso. Não quero saber de políticas, de jogos de poder. Tenho falado com os músicos: é preciso olhar além da questão técnica. E vejo que eles reagem, ou me olham, como que procurando um sinal, mas não sei o que esperam de mim! Para eles, ainda se trata de tocar mais rápido, mais devagar, mais curto. Quero fazer música em outro nível.”

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