Osesp em 2010

João Luiz Sampaio

04 de outubro de 2009 | 15h15

Foi anunciada a nova temporada da Osesp – os destaques são a integral de Mahler até 2012 e a presença de vinte e dois regentes convidados, além de Tortelier, à frente do grupo. O ano completo já está no site da orquestra. Aqui, a matéria do Caderno 2. E, abaixo, o artigo que escrevi na edição de sábado, comentando a programação e seu significado.

O anúncio da temporada 2010 da Osesp era aguardado com antecipação. É, afinal, a primeira feita totalmente sem a participação do idealizador do projeto, o maestro John Neschling. Mais do que isso, esperava-se dela que fosse a prova da capacidade do governo provisório que se instalou na orquestra, composto por conselheiros da fundação e dois consultores internacionais, de manter o grupo funcionando sem a presença forte de um diretor artístico. Anunciada ontem, a programação tem tudo para acalmar as almas mais aflitas. Algumas questões, claro, se colocam. A figura de um diretor ou regente titular é fundamental para que uma orquestra possa desenvolver sua sonoridade. Será preciso um trabalho cuidadoso do francês Yan Pascal Tortelier para manter o foco do grupo em meio a tantos regentes convidados. Ainda assim, a nova temporada pode servir para mudar um pouco o foco do debate sobre o futuro da orquestra. Ela sinaliza uma continuidade do processo iniciado por John Neschling, seja no equilíbrio do repertório, na ênfase na produção da primeira metade do século 20 ou mesmo na anunciada integral de Mahler. O caminho, enfim, continua. E, para o bem ou para o mal, é hora de aceitar: Neschling não é mais o diretor da Osesp. E é possível acreditar no futuro do grupo sem ele. Não são poucas as responsabilidades da fundação, que tem muito serviço a mostrar. A Osesp é um projeto pioneiro, tanto na formatação artística quanto no modelo de gestão, hoje dividido entre Estado e sociedade privada, também responsáveis pelo rateio do orçamento. Figura centralizadora, Neschling pairou acima da instituição em seus 11 anos à frente da Osesp – e é justo reconhecer que foi essa personalidade forte que, em muitos momentos, fez com que o grupo se mantivesse sólido perante mudanças políticas e orçamentárias. Mas o momento, agora, é outro. E nada é mais importante que o fortalecimento institucional da Osesp. A orquestra precisa, sim, de diretores fortes, que a levem a novos patamares; mas, ao mesmo tempo, na longa duração, precisa ser maior do que eles. Assim, os próximos anos serão decisivos. A segurança institucional passa pela renovação do contrato de gestão que regula a atividade da fundação e sua relação com o governo do Estado, protegendo a orquestra de intempéries políticas – e, nesse sentido, ainda estão sendo digeridas as supostas interferências do governo na demissão de Neschling. Outro ponto de urgência é a definição, antes mesmo da escolha de um nome, do formato de administração artística a ser colocado em prática. Um diretor que não seja maestro? Um administrador artístico mais forte? Um poder descentralizado? Não são questões banais. Afinal, se 2012, data da chegada do novo maestro, é hoje o momento para qual todas as atenções se voltam, não podemos igualmente esquecer que, conceitualmente, o que se estabelecer agora terá repercussões nas próximas décadas da história do grupo – e da vida sinfônica brasileira.

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