Os séculos de Verdi

João Luiz Sampaio

10 Setembro 2013 | 15h44

Para o público italiano, Giuseppe Verdi é como um pai – mas o comentário do pesquisador Massimo Mila bem poderia ser estendido ao público de ópera em geral. Poucos autores são tão queridos e celebrados quanto o criador de La Traviata, Rigoletto e Il Trovatore. Mas, no ano do bicentenário do compositor, uma exposição no Museu da Imagem e do Som quer ir além, sugerindo uma importância que extravasa o mundo da ópera e tem algo a dizer sobre a cultura ocidental em geral.

“A análise das obras de Verdi, a maneira como são histórica e atualmente encenadas, sua difusão nos vários formatos de gravação e de comunicação, tudo isso nos dá um panorama concreto do que se passa no universo da música lírica e as relações do teatro de ópera com o pensamento contemporâneo nas artes”, explica o curador da exposição Verdi – Imagens em Transição. “O objetivo da mostra é identificar, em linhas gerais, como é preservada a imagem da sua obra, a maneira como é representada e delineia o processo contemporâneo de transição do próprio gênero operístico.”

Papa conta que visitou acervos de instituições públicas e privadas em busca de material para a exposição. “Consegui recolher desde o pôster da estreia do Nabucco, no Teatro Alla Scala, até a criação de uma garota de 25 anos de Minsk para a Academia do Bolshoi. Falei também com o ilustrador inglês Brian Grimwood, um dos principais nomes do design inglês, que mandou um pôster feito para uma montagem do Falstaff.” No Teatro Colón, garimpou alguns trajes. “Consegui trazer um figurino de uma Traviata de 1945, usado pela soprano Delia Rigal, uma das roupas de Leonard Warren para um Rigoletto de 1943, assim como as vestes belíssimas usadas por Ghena Dimitrova em um Don Carlo.”

Todo esse material estará dividido em painéis. A abertura traz uma gravura em água forte de Paul Lafond feita a partir de um retrato de 1886 do pintor Giovanni Boldini, presente na Galleria D’Arte Moderna de Milão. Na sequência, o painel Juke Box oferece, em formato digital, acesso a 360 gravações histórica, incluindo artistas brasileiros como Paulo Fortes e Eliane Coelho, que permitem, segundo Papa, “comparar, por ópera, vozes de diferentes períodos”.

Em outro ambiente, o visitante terá acesso a mais de uma centena de vídeos com óperas do compositor. “A ideia é um pouco escrachada, digamos. Visitei vários acervos de colecionadores. Um deles, para você ter uma ideia, dizia ter 35 mil vídeos e gravações. Copiamos muitas coisas deles, mas, numa fase seguinte, eu acabei me dando conta de que tudo isso está hoje na internet e, o que é melhor – ou pior, dependendo do ponto de vista -, com uma qualidade muito, mas muito superior. Daí veio a percepção de que a internet é o canal para quem quer conhecer história, comparar títulos, etc.”

O curador também colocou três monitores com gravações diferentes de La Traviata para demonstrar que “está chegando – ou já chegou – a hora de a ópera valorizar o intérprete, o teatro”. “Não deixa de ser engraçado observar produções antigas com todas as deficiências de interpretação cênica, responsáveis pelo mito largamente superado de que a ópera é um tipo de espetáculo realizado somente com cantoras grandalhonas e tenores histriônicos. Felizmente, cantores maravilhosos em produções impecáveis fazem um contraponto interessante. Hoje, todo o processo exige alto grau de especialização teatral, e a ópera também dialoga com linguagens mais populares como o cinema e a televisão.”

Uma outra seção da mostra tem como tema os pôsteres – recuperando imagens antigas e produções atuais, estabelecendo relações entre o desenvolvimento técnico e o conteúdo. Por meio de uma linha do tempo, há ainda a preocupação de estabelecer uma cronologia da vida do compositor em relação à cultura de sua época.

Gerações

No painel Vitrine, que, Papa imagina, vá atrair a atenção em especial do público mais jovem que costuma frequentar o museu, a ideia é mostrar como a “preservação da ópera em conteúdos gravados tornou-se mais viável à medida que avançaram as tecnologias de captação de som e imagem”. “Por serem espetáculos de longa duração, quanto maior as capacidades de armazenamento das mídias, mais se simplificam as condições de acesso público”, explica.

Dentro desse espírito, a mostra fará referências desde aos discos de 78 rotações até o mais recente Blu-Ray, abordando não apenas a questão tecnológica, mas também as capas – e a maneira como a linguagem visual da ópera, também no que diz respeito ao modo como o gênero colocou-se no mercado, transformou-se com o passar das décadas.

SERVIÇO
VERDI 200 ANOS – IMAGENS EM TRANSIÇÃO
Museu da Imagem e do Som – Avenida Europa, 158, 2117-4777.
De 3ª a 6ª, das 12 h às 22 h; sáb., dom. e fer., das 11 h às 21 h.
Grátis. Até 29/9.

Matéria publicada na edição de 5/9/2013 na versão impressa do “Caderno 2”