Ordem ou caos?

Ordem ou caos?

João Luiz Sampaio

04 Fevereiro 2010 | 11h38

PARIS – Alan Gilbert e a Filarmônica de Nova York estão em sua primeira turnê pela Europa desde que o maestro assumiu a direção da orquestra, no meio do ano passado. Depois de anos de estrelas caras e polêmicas – Pierre Boulez, Zubin Mehta, Kurt Masur e Lorin Maazel –, a filarmônica optou por uma “solução caseira”, como disse então a imprensa americana – além de ser o primeiro nova-iorquino a dirigir a orquestra (e o primeiro americano depois de Leonard Bernstein), Gilbert é filho de músicos que toca há décadas no grupo. Discreto, ele é daqueles “orchestra builders”, maestros que pegam um grupo e não apenas redefinem sua sonoridade como lhe dão um norte artístico no que diz respeito a repertório, solistas, etc. E, depois dos anos sob Maazel, em que a crítica chamou atenção para uma certa displicência na programação e no trato da sonoridade do grupo, Gilbert parecia a escolha certa. Desde que assumiu, ele convidou o barítono Thomas Hampson para o posto de residente acadêmico, o que significa não apenas que ele se apresentará com a orquestra ao longo da temporada como também vai dar cursos e seminários sobre interpretação musical; Gilbert chamou ainda Magnus Lindberg para o posto de compositor residente; e, de quebra, começou a reinventar a série de concertos didáticos e de música de câmara da filarmônica. Não são pequenos passos – e estão de acordo com a tendência relativamente recente de entender a atividade de uma sinfônica como mais do que apresentar concertos, criando em torno da atividade musical um sentido de relevância cultural que a extravaza e ressignifica. E há, claro, a turnê. A orquestra viajou com dois programas, ambos com obras de autores vivos, o que é raro e interessante – um com uma peça de Lindbergh, encomendada especificamente para a viagem, e outro com The Wound-Dresser, peça dos anos 80 de John Adams (com Hampson como solista); na lista, ainda peças de Schubert, Haydn, Prokofiev e Alban Berg. O concerto que vi foi uma salada total – começou com uma sinfonia de Haydn, depois John Adams, a Inacabada de Schubert e as Três Peças para Orquestra de Berg. A ideia parece ser mostrar não apenas a diversidade estilística encampada pela filarmônica como também o espectro das possibilidades de seu novo regente. E o resultado? A sonoridade da orquestra impressiona, os metais em especial são de tirar o fôlego. Mas tudo soa muito parecido e, se Gilbert parece em controle de todos os elementos da música, não faz com que ela decole em momento algum. Mesmo o dramático The Wound Dresser, crítica à guerra de Adams, com solos do magnífico Hampson, parece sem tempero, opaco. Não há mesmo nada fora do lugar – mesmo no Berg, que exige virtuosismo individual e coletivo da orquestra, tudo estava no lugar certo: mas foi preciso esforço para lembrar como essas peças representam a ruptura de um compositor entre passado, presente e uma ideia possível de futuro. Gilbert, aqui, consegue por lógica e ordem na sensação de caos. O que, em arte, nem sempre é o melhor a se fazer.