Ópera em 2019, ópera em 2020

O que esperar da programação do próximo ano? É preciso esperar o resultado das ideias que 2019 trouxe...

João Luiz Sampaio

31 de dezembro de 2019 | 16h18

Escrever retrospectivas e previsões é exercício comum para jornalistas no final de ano.

Mas nem sempre é fácil.

Pois há anos que não terminam no dia 31 de dezembro – e outros que não começam no dia 1º de janeiro. Na cultura, afinal, as durações tendem a ser um pouco diferentes.

E, no caso da ópera, precisamos ainda colocar na conta um paradoxo: o aumento previsto no número de espetáculos, em 2020, na sequência de um processo de questionamento da própria validade do gênero como manifestação artística, que botou as asinhas de fora uma vez mais durante 2019.

Mas é preciso tentar organizar as ideias. Do começo.

Há duas maneiras de olhar para a temporada de óperas em São Paulo em 2020.

A primeira delas traz apenas boas notícias.

No Teatro Municipal, serão sete títulos; no Teatro São Pedro, seis (se considerarmos as duas produções da Academia). Treze, no total, cinco a mais do que em 2019.

A escolha de títulos também parece promissora.

O Municipal criou uma temporada em que o grande repertório (com Aida, de Verdi, e Don Giovanni, de Mozart) convive com a encomenda de duas obras (Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli, e Homens de papel, de Elodie Boundy, ambas inspiradas em Plinio Marcos). E, no São Pedro, duas peças-chave do teatro americano do século XX, Porgy and Bess, de Gershwin, e West Side Story, de Bernstein, além de Ariadne auf Naxos, de Strauss, e um símbolo do bel canto, Capuletos e Montéquios, de Bellini.

Dizem que o otimista é um pessimista mal informado. Exagero. Mas há um contexto por trás das duas programações que sugerem um outro olhar para o ano.

No Municipal, a temporada 2020 mostra que, apesar da abertura para outros gêneros, o teatro não diminuiu o espaço para a ópera. Mas a escolha de óperas como Aida e Don Giovanni, ainda que elas possam ser sempre relidas, veio com a lembrança de que ambas foram produzidas recentemente pelo teatro, o que nos remete também ao fantasma da ausência de uma Central Técnica de Produção que permita que as produções sejam guardadas, otimizando as temporadas e evitando o eterno recomeço.

Há possibilidades interessantes na proposta do diretor artístico Hugo Possolo para o Municipal. Algumas delas, como a releitura do grande repertório por diretores vindos de outros universos artísticos, não é exatamente novidade no cenário brasileiro. Mas a proposta de pensar a ópera pelo filtro da diversidade ou do lugar de fala é importante.

Convenhamos: em um teatro que, há dois anos, programou uma temporada para discutir o feminino na ópera sem convidar uma só mulher para as equipes de criação, é um alento ouvir Possolo falar da necessidade de ter diretoras à frente das releituras de títulos como Don Giovanni ou Carmen. Ou então ver o teatro encomendando óperas pela primeira vez na sua história e fazendo isso a partir de obras de um dramaturgo que levou ao palco a exclusão social, tema ainda fundamental no Brasil.

Mas, independentemente de propostas estéticas, a questão da Central Técnica de Produção não é detalhe. Pela possibilidade de compor temporadas mais amplas a partir do acervo, sim, mas também pelo fato de que sugere um olhar de médio e longo prazo para a instituição. Gestões vem e vão, o teatro torna-se um espaço mais rico com a contribuição de seus diretores com o passar do tempo, mas as últimas décadas mostram a fragilidade institucional que resulta da resistência em lidar com questões estruturais. Dirigir o Municipal é prezar pela sobrevivência da instituição, com ideias, claro, mas com a preocupação de criar dinâmicas de trabalho capazes de dar vida a elas.

No Teatro São Pedro, por sua vez, a presença de Gershwin e Bernstein, dois autores americanos, quebrou um ciclo de diversidade que o teatro vinha construindo. E, nesse sentido, a ausência de encomendas, que em 2019 levou à criação de Ritos de perpassagem, de Flo Menezes, é um retrocesso.

A questão é que essas mudanças foram impostas pela decisão de diversificar a programação, abrindo espaço para musicais e outros gêneros e questionando abertamente a validade de um teatro dedicado à ópera. Esse é o ponto mais grave, pois, intencionalmente ou não, carrega o subtexto de que “o Teatro São Pedro não pode ser um teatro de ópera porque a existência de um teatro de ópera não faz sentido”.

E aí nos percebemos na situação esdrúxula de defender a ópera como gênero artístico, como se precisássemos reafirmar sua importância ou mesmo o valor de se manter viva uma tradição que, naturalmente, pode ser relida à luz de tempos que se transformam. O que se torna ainda mais absurdo depois de uma temporada em que três óperas novas – Prism, de Ellen Reid, O Peru de Natal, de Leonardo Martinelli, e Ritos de Perpassagem – e releituras de L’italiana in Algeri, de Rossini, e de Rigoletto, de Verdi, mostraram a vitalidade do gênero assim como sua capacidade de lidar com temas atuais. Para não falar do modo como Alma, de Claudio Santoro, chamou atenção mais uma vez para a enorme quantidade de títulos inéditos escritos por autores brasileiros, com um domínio da forma e uma proposta estética estimulante, inclusive no modo como dialoga com a literatura – neste caso específico, o livro Os Condenados, de Oswald de Andrade.

Há um problema em se diversificar a programação de teatros de ópera? Essa proposta é o fim do teatro de óperas como o conhecemos? Não sei, mas tendo a acreditar que a ópera é forte e não precisa ser tratada com condescendência. É capaz de dialogar com as outras artes (desde que nasceu, por sinal) com voz ativa, contribuindo tanto com elas quanto pode ser enriquecida por outras visões artísticas e de mundo.

A ópera não é melhor nem pior que outras formas de manifestação e artística – e como todas elas vive desafios, tanto no que diz respeito a investigações estéticas quanto à inserção na sociedade, a diversidade de seu público, que a vê de maneiras diferentes e espera dos espetáculos coisas diferentes, a aposta na criação versus o conforto da tradição, e assim por diante. Mas sofre com o preconceito que fala de um espetáculo elitista, caro, exclusivo, desinteressante ao olhar da sociedade do século XXI.

É uma ideia antiga, que vez ou outra ganha força, em especial entre aqueles que nunca se deram ao trabalho de entrar em um teatro de ópera. Mas o que se espera de um teatro público é a capacidade de ir além dela. Talvez esteja aí o ponto de partida para uma verdadeira revolução na relação do gênero com nosso tempo. A ópera aguenta.

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Em tempo: o blog sai um mês de férias, e retorna no começo de fevereiro. Boas festas a todos!

*Uma versão editada deste texto está na edição do dia 1º de janeiro do Caderno 2.

 

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