Ópera, bem viva, no cinema

Ópera, bem viva, no cinema

João Luiz Sampaio

13 de fevereiro de 2009 | 14h14

Stephanie Blyhte e Danielle De Niese/Foto Divulgação

Não é de hoje que a morte da ópera é anunciada com alarde. O primeiro argumento é de que não há dinheiro nem público; em seguida, culpa-se os artistas – não haveria uma nova geração de cantores, diretores e maestros capazes de manter o fascínio do gênero; por fim, ataca-se o gênero em si, que é chamado de anacrônico, não mais do que uma peça de museu para as questões estéticas de nosso tempo. Isso, para resumir bem o debate.
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Ontem fui assistir à projeção para imprensa de “Orfeu e Eurídice”, de Gluck, montagem do Metropolitan Opera House de Nova York. Para quem não sabe, o teatro criou há alguns anos um programa de projeções no cinema de suas produções. Em uma tentativa de ampliar seu público, a ideia é a seguinte: em todos os EUA e Europa, você compra seu ingresso no cinema local e assiste, ao vivo, a transmissão das principais montagens do teatro. A ideia agora está chegando ao Brasil. No Rio, há duas semanas, foi apresentada “La Rondine”, de Puccini, no Cine Odeon, com sucesso de público (em seu blog, a jornalista Heloísa Fischer comenta a exibição e a reação dos espectadores). Em São Paulo, o projeto começa domingo, com este “Orfeu e Eurídice” (no Brasil, as transmissões serão feitas com alguns dias de atraso em relação à estreia). O som é de alta qualidade, assim como a filmagem, que inclui uma câmera nos bastidores, oferecendo olhar diferente daquele com que estamos acostumados. Antes do início da ópera, uma pequena entrevista com o diretor Mark Morris, que explica sua concepção e apresenta os principais temas da ópera de Gluck. Legendas em português acompanham a projeção.
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Orfeu é vivido pela meio-soprano Stephanye Blythe; a soprano Danielle de Niese canta o papel de Eurídice. São dois novos nomes do cenário internacional, mas o canto é de altíssimo nível. Blythe tem um timbre belíssimo, quente, com uma riqueza de coloridos que a coloca muito à vontade tanto nos graves como nos agudos. De Niese, além de linda, é muito expressiva, seu canto tem uma urgência arrebatadora. Todos os elementos da montagem se fundem de maneira muito inteligente. A concepção do diretor Mark Morris é contemporânea, de cores escuras, sombrias, simples mas eficiente na tentativa de ressaltar as múltiplas sugestões da música, do tom ensolarado da abertura aos monólogos sofridos de Orfeu. A regência de Levine é modelo do que se pode estabelecer quando uma orquestra moderna apreende técnicas da interpretação barroca. Tudo flui com muita naturalidade.
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Na saída da cabine, encontrei um colega que acabava de assistir à exibição para a imprensa de um outro filme, concorrente ao Oscar deste ano. Estava decepcionado com a banalidade da história e, mais do que isso, com a estrutura batida e ultrapassada do roteiro. Fiquei pensando. “Orfeu e Eurídice” foi escrito por Gluck na primeira metade do século 18. E, mesmo tanto tempo depois, a junção entre texto e música segue fascinante. Com todas as convenções de estilo e época, uma ária como “Che Farò Senza Euridice” continua uma das mais belas impressões da alma humana sobre os significados do amor. Que uma obra como essa consiga, três séculos depois, inspirar novas e empolgantes leituras, avançando o debate estético de nosso tempo, deve dizer alguma coisa não apenas sobre o talento do compositor mas também sobre o próprio significado da ópera enquanto gênero. Adiem o velório.

Blythe cantando Rossini:
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Ficaram faltando, como ressaltou a Hilda, os horários e locais de exibição. Aqui vão eles:

Rio:
dia 15/11h – Estação Ipanema
dia 15/17h – Unibanco Arteplex – RJ
dia 15/17h50h – Estação Vivo Gávea
dia 17/21h – Unibanco Arteplex – RJ
dia 17/21h20 – Estação Vivo Gávea

São Paulo:
dia 15/17h – Cine Bombril
dia 15/17h – Espaço Unibanco de Cinema Pompéia
dia 15/17h – Unibanco Arteplex
dia 17/19h30 – Cine Bombril
dia 17/20h – Unibanco Arteplex

Santos:
dia 15/17h – Espaço Unibanco Miramar

Belo Horizonte:
dia 15/17h – Espaço Unibanco Ponteio
dia 15/17h – Usiminas Belas Artes
dia 17/19h30 – Espaço Unibanco Ponteio

Curitiba:
dia 15/17h – Unibanco Arteplex
dia 17/19h30 – Unibanco Arteplex

Porto Alegre:
dia 15/17h – Unibanco Arteplex
dia 17/20h – Unibanco Arteplex

Brasília:
dia 15/17h – Cine Academia
dia 15/17h – Casa Park
dia 17/20h – Cine Academia

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