Obra-chave do século 20 é destaque no Festival de Campos do Jordão

Obra-chave do século 20 é destaque no Festival de Campos do Jordão

Artistas falam sobre a execução de "Le Marteau sans Maître", de Pierre Boulez, que será apresentada nesta quinta e sexta, dias 14 e 15, ao lado de "Towards the sea", de Toru Takemitsu, no Festival de Inverno de Campos do Jordão

João Luiz Sampaio

13 Julho 2016 | 20h46

O Festival de Inverno de Campos do Jordão apresenta nesta quinta, em Campos, e na sexta, na Sala São Paulo, um dos concertos mais importantes dessa edição. No programa, Le Marteau sans Maître, do compositor francês Pierre Boulez, em sua primeira audição brasileira, ao lado de Towards the Sea, do autor japonês Toru Takemitsu. O time de intérpretes, comandado pelo maestro Ricardo Bologna, é composto pela flautista Claudia Nascimento, o violonista Fábio Zanon, a soprano Manuela Freua, o violista Peter Pas e os percussionistas Eduardo Gianesella, Rúben Zuñiga e Carlos dos Santos.

Le Marteau sans Maître estreou nos anos 1950, baseada em uma série de poemas surrealistas de René Char. “É sem dúvida uma das obras-chave da música do século XX. Não só porque ela de certa forma revisita e homenageia a obra Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg, outro marco, como também propõe e desenvolve novas idéias musicais que inspiraram muitos compositores dos anos 50 até os dias atuais. Além das técnicas composicionais de extrema complexidade, Boulez realiza uma combinação instrumental inédita para a época: voz, flauta contralto, viola, violão, vibrafone, xilofone, bongôs, tambor, sistros, sinos de vaca, maracas, gongos e tam-tam. Tudo isso tendo como pano de fundo os poemas surrealistas de René Char”, diz Bologna. Para Manuela Freua, Boulez cria desafios com essa instrumentação, assim como com a utilização da voz como mais um instrumento. “Da mesma forma, é muito rico e pouco usual o modo como ele estabelece a relação entre texto e música”, afirma a soprano. “É um tour de force tanto para o maestro como para a cantora e os solistas. A pe;ca pavimentou certos aspectos da execução musical até então inexplorados”, completa Bologna.

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Towards the Sea foi escrita para violão e flauta no início dos anos 1980 por Takemitsu, como uma encomenda do Greenpeace para a campanha Save the Whales. “No seu trabalho tardio, Takemitsu busca uma maneira de sua música se harmonizar com a natureza. A música é muito fluida; a harmonia pode soar até bastante familiar: ele procura acordes mais arredondados e gentis ao ouvido. Mas o discurso, pontuado por longos silêncios e reverberações, a precisão do gesto, a obsessão com o detalhe com que ele trata o timing e a sonoridade de cada elemento fazem com que a música soe arejada e nova”, acredita Fábio Zanon. “De uma certa forma, tanto Boulez quanto Takemitsu são ramificações de Debussy, mas com pontos de vista opostos. A música de Takemitsu é cuidadosamente planejada para dar uma impressão de espontaneidade.”

E como se dá a exploração da sonoridade do violão em diálogo com a flauta? “Eu acho que ele trata  o violão e a flauta em sol como parentes do koto e da shakuhashi, instrumentos tradicionais japoneses. Ele procura posições inusitadas no dedilhado da flauta, que alteram a afinação e a quantidade de ar que vaza de cada nota. Como a flauta em sol é menos brilhante que a flauta soprano, ele pode jogar com uma gama muito ampla de sonoridades suaves; isso cria situações inusitadas, em que o violão, notório por ter pouco volume, tem de se esforçar para não encobrir a flauta”, coloca o violonista.

Boulez e Takemitsu
Quinta, dia 14 de julho, Igreja de Santa Terezinha (Campos do Jordão), 17h30
Sexta, dia 15 de julho, Sala São Paulo, 20h30

 

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