O tempo, de Beethoven a Messiaen

O tempo, de Beethoven a Messiaen

No Festival Berlioz, o tempo visto por meio de sonatas de Beethoven, um concerto com Liszt e Dvorak e o deserto recriado em música por Olivier Messiaen

João Luiz Sampaio

25 de agosto de 2014 | 09h23

Ouvir a integral das sonatas para piano e violoncelo de Beethoven, obras fundamentais da primeira metade dos anos 1800, em uma pequena igreja do século 12 e pelas mãos de dois destacados intérpretes da nossa geração é uma experiência capaz de bagunçar a nossa percepção do tempo – um tempo que é histórico, mas também definição da personalidade tanto de compositor como dos intérpretes. O que torna as cinco sonatas tão interessantes não é apenas o fato delas – e as possibilidades expressivas que sugerem – terem significado o renascimento do violoncelo como instrumento solista. Mas, também, o fato de que, escritas ao longo de vinte anos, oferecem um olhar privilegiado sobre a evolução de Beethoven como compositor que assimila a tradição de seu passado, flerta com novas possibilidades oferecidas pelo seu presente e encerra a carreira antevendo um futuro do qual não fará parte, mas que também será dele. No palco da igreja de La Côte Saint-André estavam o pianista François Frédéric Guy e o violoncelista Xavier Phillips. Música de câmara é, acima de tudo, diálogo. Seus estilos e a maneira como se aproximam das sonatas de Beethoven, no entanto, não poderiam ser mais diferentes. Guy contempla o discurso musical, cria frases que se querem amplas, largas; Phillips, por sua vez, carrega o seu toque de um sentido de urgência – no final, que piano e violoncelo se harmonizem é um desses mistérios do fazer musical.

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O primeiro concerto da Orquestra Nacional de Lyon em La Côte Saint-André, no contexto do Festival Berlioz, apresentou na noite de sábado no Château Louis XI o poema sinfônico Prometeu, de Liszt, o Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Edward MacDowell, e a Sinfonia Novo Mundo, de Dvorak. Pianista e virtuose americano, MacDowell viajou para a Europa, onde conheceu Liszt – e o foi o húngaro que o incentivou a levar adiante o desejo de atuar também como compositor. Assim, colocar lado a lado peças dos dois estabelece no palco uma relação histórica. A desvantagem é que, no final das contas, também revela o pouco que MacDowell tem a dizer por si próprio, assimilando influências do próprio Liszt e de Rachmaninoff – mas indo pouco além delas, apesar da interpretação irretocável do pianista Hervé Billaut, que tem se especializado em sua obra. À frente da orquestra esteve a maestrina portuguesa Joana Carneiro. No Brasil, ela já regeu a Osesp em duas ocasiões. Aqui, me decepcionou um pouco. Há um descompasso evidente entre a regência histriônica, repleta de movimentos largos, e o que de fato acontece na orquestra. E, tanto no Liszt como na Sinfonia Novo Mundo, o resultado é uma leitura no máximo correta.

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De novo, o tempo. Agora, em uma relação estreita com a noção de espaço sugerida por Olivier Messiaen em Des Canyons aux Étoiles, dos cânions às estrelas. A obra, que exige orquestra com grande efetivo de percussão, além de piano e trompa solistas, foi escrita para celebrar o bicentenário da independência norte-americana e tem como inspiração paisagens do país, em especial da região de Utah. Vale a pena lembrar o que ele diz sobre a peça. “Eu vi os cânions de duas perspecticas diferentes. Eu os vi do alto, com a vertigem do abismo. E, depois, eu minha mulher descemos pelas trilhas, em direção à profundeza desse abismo. (…) Eu subi da profundeza do abismo à beleza das estrelas. Meu trabalho é ao mesmo tempo geológico, ornitológico, astronômico e teológico. Apesar da importância das cores e dos pássaros, trata-se acima de tudo uma obra religiosa, de adoração e contemplação.” Não há preocupação descritiva evidente. Fascinado pela natureza, Messiaen a recria na verdade por meio de pequenas identidades (ou recortes) sonoros que emulam a paisagem, os pássaros, os elementos. De certa forma, faz música para descrever o vazio de um deserto. É uma experiência artística e sensorial impressionante, uma das mais especiais até agora na programação do festival, ainda por cima pelas mãos da Orchestre Poitou-Charentes, regida por Jean-François Heisser, e do pianista Jean-Frédéric Neuburguer.

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