O que esperar da temporada de óperas em São Paulo

Somando-se os dois principais teatros da cidade, serão oito títulos. É muito? Pouco? Importa mais saber o que as instituições vão fazer para construir projetos de médio prazo capazes de dar à ópera importância que ela pode ter no debate cultural

João Luiz Sampaio

23 Fevereiro 2018 | 17h38

Com o lançamento da temporada do Theatro São Pedro, no começo desta semana, já é possível esboçar um quadro do que será a temporada lírica de São Paulo em 2018. Depois de um ano de hesitações, serão oito títulos: os quatro do São Pedro mais os quatro escolhidos pelo Teatro Municipal, anunciados no final de janeiro.

Oito títulos. Perto da ameaça constante da inexistência de temporadas, parece um bom número. Não é. Só o Teatro Colón apresentará 11 produções – e nisso para ficarmos na comparação com um teatro latino-americano, que enfrenta crise parecida com a nossa, e que, como nossos teatros, não funciona no modelo de repertório, que pela sua própria definição incluiria um número maior de espetáculos, revezando-se ao lado de novas produções.

Há boas notícias. A mais importante delas, o equilíbrio no repertório. O Teatro Municipal vai apresentar grandes títulos tradicionais: La Traviata, de Verdi; O Cavaleiro da Rosa, de Strauss; Pelleás e Melisànde, de Debussy; e Turandot, de Puccini. Quatro “operões”, como costuma dizer o público de ópera, que cabem bem nas proporções de um teatro como o Municipal. Já o São Pedro optou por uma abertura a repertórios alternativos, o que não quer dizer necessariamente que são óperas obscuras, mas com certeza representantes de um repertório raramente apresentado nas temporadas brasileiras: O matrimônio secreto, de Cimarosa; Alcina, de Händel; Katia Kabanova, de Janácek; e Sonho de uma noite de verão, de Britten. Justo: outras obras de Janácek já foram feitas em São Paulo e no Rio de Janeiro, Cimarosa no próprio São Pedro. Mas, quando isso aconteceu, foi pela escolha pessoal de um ou outro diretor ou maestro e não dentro de um contexto institucional.

No caso do São Pedro, a escolha de títulos parece vir na esteira da articulação de uma nova proposta artística, sugerida pela Santa Marcelina Cultura desde o ano passado, quando assumiu o espaço falando na busca por um repertório que permita pensar a ópera e sua relação com a sociedade à luz da contemporaneidade. No Municipal, por sua vez, não está claro um conceito institucional que vá além do vago “criar programação relevante para os amantes da música lírica”. No que diz respeito à temática, fala-se em óperas que abordam o amor e seus conflitos. O conceito (que, de resto, serve para 99% do repertório operístico) até poderia sugerir um olhar atual na articulação do “eu” em diálogo com o “nós”, como diz Carlos Gradim, diretor-presidente do Instituto Odeon. Mas não há nada de novo, pelo contrário, na proeza de, entre diretores musicais e cênicos, nenhuma mulher ter sido convidada a participar de uma temporada que quer tratar “o pensamento feminino como fio condutor para a construção de um diálogo acerca dos modos de amar”.

O New York Times publicou nos últimos dias uma interessante reportagem a respeito da Ópera de Paris. Segundo o repórter, o teatro está realizando uma improvável revolução, que tem a ver com a idade média de seus espectadores: 45 anos para a ópera e 43 para o balé, em comparação com os 58 anos do Metropolitan de Nova York ou os 65-72 da Ópera de Houston ou os 54 da Ópera Estatal de Berlim. Stéphane Lissner, diretor geral, fala na necessidade de correr riscos e inovar para que possa fugir da rotina. E o texto elenca algumas iniciativas, como apresentações exclusivas para plateias jovens, com um patrocínio específico que permite cobrar apenas dez euros pelos ingressos de todos os setores da plateia (30 mil pessoas atingidas por temporada, sendo que 56% foram à ópera pela primeira vez); espetáculos para família que nunca estiveram no teatro; e a produção de filmes curtos, que tratam a internet como “terceiro palco”, além do Palais Garnier e da Ópera Bastilha, tendo como assunto as produções da casa: já são 50 vídeos, vistos 3 milhões de vezes; e parcerias com outras instituições culturais da capital francesa, com o Musée D’Orsay, que em 2019 vai abrir uma exposição intitulada Degas na Ópera, maneira de mostrar a história do teatro para um público estimado de 700 mil pessoas. “Nossa expectativa é tornar a ópera uma opção a ser considerada pelo público mais acostumado a ir a museus apenas”, diz Lissner. O texto aborda também iniciativas da Staatsoper de Berlim: a criação de uma orquestra infantil de ópera, em parceria com escolas de música, e de um programa de “repórteres adolescentes”, que terão acesso aos bastidores e vão produzir material sobre o que por lá acontece para a internet.

Paris é Paris, Berlim é Berlim, e cada teatro, nesta busca por fugir da rotina, deve encontrar a solução que lhe pareça mais adequada às suas necessidades individuais. Mas há duas ideias de fundo em comum, talvez as mais importantes. A primeira é a de que, por mais que uma temporada sólida seja a alma de um teatro de ópera, é preciso refletir sobre maneiras de ampliar o impacto e a presença que esses espetáculos podem ter no debate cultural. A segunda: essa busca se faz acreditando na ópera e no interesse que ela pode despertar no mundo contemporâneo, sem cair no argumento ineficaz de que é produzindo outros tipos de espetáculo em um teatro de ópera que se cria público para o gênero. Em outras palavras, é com ópera que se defende a importância da ópera.

Tanto o Teatro São Pedro como o Teatro Municipal de São Paulo encontram-se, neste momento, em um início de projeto. Contratos de gestão (ainda que os governos tenham recentemente feito deles pouco mais do que uma carta de intenções a ser revogada a qualquer instante) sugerem quatro outras temporadas pela frente. Que tipo de planejamento elas terão em mente nesse período, como entendem essa relação da ópera com mundo contemporâneo? Em que medida estão dispostas a uma discussão séria a respeito do gênero, levando em consideração também que ambas têm associadas aos seus teatros um projeto educacional e de formação com o qual devem dialogar, trabalhando na formação de artistas? Sem esse debate, começaremos apenas mais um ciclo que, daqui a alguns anos, vai se encerrar sem deixar legado, lastro, sendo substituído por um novo recomeço. E seguiremos andando em círculos.