O “Macbeth” de Belo Horizonte

O “Macbeth” de Belo Horizonte

João Luiz Sampaio

22 de junho de 2009 | 13h40

Cheguei agora de Belo Horizonte, onde fui ver o ‘Macbeth’ no Palácio das Artes. Mais tarde vou sentar para escrever a matéria do ‘Caderno 2’, mas já adianto que gostei bastante da montagem de Cleber Papa. Como diretor, ele segue uma linha consistente em seus trabalhos: a concepção sai de dentro da obra, ele procura no libreto e na música pequenos detalhes que, ressaltados e em conjunto, ajudam a ressignificar grandes pilares do repertório. Foi assim com este ‘Macbeth’, de concepção visual simples mas efetiva, mostrando que é possível narrar bem, de maneira inventiva, uma história – o que na ópera nem sempre é óbvio como pode parecer. No mais, porém, confesso que me decepcionei bastante com o Macbeth do americano Jason Stearns. Bastante mesmo. A voz é bonita, sim, está no registro adequado para o papel. Mas é inexpressiva, sem contrastes. Cenicamente, ele também deixa a desejar, muito amaneirado e aquém das possibilidades oferecidas pelo papel. A cena em que, durante a festa no castelo, ele é assombrado pelo fantasma de Banquo, é um presente para qualquer bom ator, com as visões e alucinações colocando para fora toda insegurança, fraqueza, desejo de heroísmo e submissão do personagem.No final das contas, Stearns passa batido por quase todas essas possibilidades, muito pouco envolvido com o papel. O mesmo vale para a cena em que ele tenta matar o rei, que dorme em seu quarto. Nós não vemos o que acontece, apenas o relato fantasmagórico de um Macbeth assustado e incapaz de cumprir sua tarefa. A capacidade de evocação daquela sensação, na música e no texto, é enorme. Mas, com Stearns… nada. Já Cynthia Lawrence, como Lady Macbeth, se mostra bastante ligada à personagem, mesmo que o vozeirão, principalmente quando sobe para as regiões mais agudas, dê umas escorregadas. A Filarmônica de Minas esteve impecável tecnica e estilisticamente sob a regência de Fábio Mechetti. Mas pode crescer em intensidade ao longo da temporada – um ou outro momento ainda soa um pouco morno.

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