O fim possível para o caso OSB

João Luiz Sampaio

05 de setembro de 2011 | 09h45

Após oito meses de muito debates e manifestações nem sempre pacíficas, no Brasil e no exterior, chegou ao fim na sexta-feira o Caso OSB. Há uma série de detalhes no acordo firmado entre fundação e sindicato de músicos, que você pode ler aqui, mas em resumo chegou-se ao seguinte formato: 26 dos músicos demitidos formam a partir de agora uma nova orquestra, ainda sem nome, mas pertencente à fundação OSB; 9 artistas, veteranos, têm o direito de escolher em qual orquestra tocar.

Há duas questões artísticas prementes, perante as quais o mundo musical brasileiro se coloca a partir de agora, curioso. A primeira: como vai se desenvolver o trabalho da nova Sinfônica Brasileira? A recepção aos concertos já realizados, sob a batuta do maestro Lorin Maazel, parecem sugerir que, se a música soar com qualidade – e todos estarão fiscalizando –, a OSB não deve encontrar resistência para recuperar seu espaço na vida musical carioca e brasileira. A segunda: e o grupo formado pelos demitidos (que deveria ganhar logo um nome), como vai funcionar? Qual será sua orientação artística? Como vai justificar sua existência – e quais as garantias de sua sobrevivência? Nunca é demais lembrar que vimos algo parecido acontecer na criação da nova Osesp, no final dos anos 90, quando um grupo de músicos demitidos criou a Sinfonia Cultura, ligada à Fundação Padre Anchieta. Sob a batuta de Lutero Rodrigues, a orquestra conseguiu, apesar das dificuldades, conquistar um espaço no panorama sinfônico, dedicando-se especialmente a dar espaço a compositores brasileiros. Ainda assim, com uma proposta artística relevante e estabelecida, foi extinta de repente, nem dez anos após a sua criação. Mas, para além da questão artística, há outro aspecto a ser considerado. O clima geral é de celebração. Um dos novos diretores artísticos da OSB, Fernando Bicudo – que ao lado de Pablo Castelar substituiu o maestro Roberto Minczuk no posto – disse que enfim se chegou a uma solução pacífica, exemplo da possibilidade de diálogo. A questão agora é ver qual o lastro concreto desse diálogo. Pois, no fundo, todo o caso OSB nasce da incapacidade de dialogar. E, de certa forma, a questão principal, pivô de toda a crise, não foi resolvida: a dificuldade de relacionamento entre músicos e maestro. Um dos critérios do acordo é que a nova OSB não será jamais regida por Minczuk – e, se algum músico for chamado a tocar na antiga OSB, o fará apenas em concertos não regidos por ele. Em outras palavras, ao menos nesse ponto, institucionalizou-se a birra e a incapacidade de dialogar.

A volta ao trabalho dos músicos é de fato digna de celebração, assim como o retorno normal das atividades do grupo e seu maestro. Oito meses depois, estava mais do que na hora dessa história terminar. Foi o fim possível para o caso OSB. Mas a questão estrutural – o paradigma institucional de entidades culturais e, no caso específico das orquestras, a busca por um modelo inclusivo e democrático de gestão – continua em aberto. Basta lembrar a quantidade enorme de temas que rondaram o caso, que levam a algumas perguntas: Como garantir o nível salarial dos músicos? As orquestras têm estrutura para exigir deles exclusividade – e que estrutura seria essa? Como pode se instituir uma avaliação constante e menos traumática de desempenho? Qual deve ser o papel dos músicos na gestão de uma orquestra? Quais os mecanismos que podem gerir a dinâmica interna de um grupo? Ainda faz sentido a polêmica a respeito da contratação de estrangeiros para uma orquestra brasileira? Qual pode ser o papel de uma sinfônica em uma sociedade, como ela e seus músicos podem se justificar perante a vida cultural? São questões que ambos os lados, assim como tantos outros envolvidos, não souberam responder. Que não seja necessário um novo “Caso OSB” para que isso aconteça.

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