O fim do reinado de James Levine?

O fim do reinado de James Levine?

João Luiz Sampaio

22 de março de 2011 | 20h01

James Levine não apenas pediu demissão do posto de diretor artístico da Sinfônica de Boston como, agora, cancelou algumas de suas récitas no Metropolitan Opera House de Nova York. Não vai mais comandar a companhia nas apresentações de “O Ouro do Reno” e “Il Trovatore”; a expectativa é que ele possa estar à frente da orquestra do Met em “A Valquíria” e “Wozzeck”, as outras duas óperas para as quais ele estava escalado no primeiro semestre.

Levine tem problemas sérios na coluna – e não é a primeira vez que é obrigado a cancelar apresentações. Desta vez, chamou atenção a decisão extrema de deixar a direção artística em Boston – e logo a imprensa americana começou a se perguntar até quando ele ficará no mesmo posto em Nova York. A pergunta seguinte, claro, é: quem vai substituí-lo? Fabio Luisi e Marco Armiliato, maestros que vão assumir o pódio no “Ouro do Reno” e em “Il Trovatore”, são tidos como candidatos; mas é provável que a gestão Peter Gelb se interesse por um nome mais badalado e até de um improvável Yannick Nezet-Seguin já se falou.

Depois de quarenta anos de Levine, é mesmo difícil pensar em um candidato a sucessor para Levine. Ele e o Metropolitan se associaram de tal forma que é difícil pensar na companhia sem ele à sua frente; eu precisei ir pesquisar para ter certeza sobre quem dirigiu o Met antes dele: Bruno Walter, George Szell, Fritz Reiner e Dimitri Mitropoulos, por sinal. Vêm à mente, então, gravações memoráveis desse time. Mas isso não muda o fato de que, nos últimos quarenta anos, Levine foi o Met: refinou o estilo, definiu os rumos do repertório, levou a orquestra em direção ao palco de concertos e fez dela um dos principais grupos sinfônicos norte-americanos.

Curioso que ele não é unanimidade. Ontem mesmo conversando com o colega Antonio Gonçalves Filho aqui na redação, falávamos disso. Toninho o considera irregular e, em obras como o “Anel” de Wagner, incapaz de oferecer leituras de fato originais. Seu “Anel” não está também entre os meus favoritos, apesar de um ou outro desempenho vocal. Mas no repertório italiano, acho Levine uma referência difícil de contornar. Em fevereiro, em Nova York, assisti a um “Simon Boccanegra” que até hoje não me sai da cabeça. O timing dramático, o cuidado na construção das linhas de canto, a maneira como faz orquestra e cantor dialogarem – tudo é espontâneo, é teatro puro. E, para um regente de ópera, isso é tão importante como difícil de encontrar. Além disso, seu repertório não foi tão limitado e conservador como se costuma dizer – as caixas de CDs e DVDs lançadas para comemorar o 40º aniversário, com gravações desse período, abrem espaço para óperas do século 20 e títulos menos conhecidos.

Levine, ao que tudo indica, deve se recuperar e encerrar nas róximas temporadas sua trajetória como titular no Metropolitan, voltando ocasionalmente como convidado mais do que especial. Para o público de ópera, desde já, fica a pergunta: quem poderá substitui-lo? Pela importância do Met, a resposta tem tudo para mexer –e muito – com o mundo da ópera.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.