O caso Neschling

João Luiz Sampaio

08 de fevereiro de 2009 | 15h11

Alguns leitores pediram que eu comentasse aqui a demissão do maestro John Neschling. A discussão é complexa e não se esgota em um post. Mas começo o bate-papo sobre o tema com alguns pontos que considero importantes:

1) A qualidade do projeto desenvolvido pelo maestro. A Osesp não apenas se tornou uma orquestra de qualidade exemplar como soube se inserir de maneira mais ampla no contexto cultural do País: extravasou o mundo da música e, ao mesmo tempo, somou aos concertos atividades paralelas de suma importância, como a criação de uma editora dedicada a partituras de autores brasileiros ou uma academia para jovens músicos brasileiros.
2) A força institucional do projeto Osesp. Ao mesmo tempo em que lutou para criar uma estrutura de trabalho independente, menos sujeita às intempéries políticas, o que permitiria a criação de um projeto a longo prazo, a gestão de John Neschling criou a sensação de que sem ele não há orquestra. Com isso, volta-se àquele mesmo problema, identificado de maneira geral na vida pública brasileira: instituições contam menos que indivíduos.

Todos os episódios recentes de alguma maneira se articulam em torno desses dois pontos. Uma possível interferência do governo do Estado na substituição do maestro, como Neschling afirma ter acontecido, seria um tapa na cara da fundação Osesp e de sua suposta independência, mostrando fraqueza institucional. Defender a ideia de que sem ele não há Osesp, como fez Neschling, também não ajuda. É fato que seu poder dentro da orquestra sempre foi muito grande, não se encaixando na divisão corporativa buscada pela fundação. Ao mesmo tempo, a quebra desse poder, representada na possibilidade de dividir as funções de diretor artístico e regente-titular, precisa ser discutida conceitualmente de modo claro e transparente, afastando a sensação de que foi motivada apenas pelo desejo de se afastar um maestro.

A Osesp criou paradigmas na vida musical brasileira. A primeira sucessão dessa nova etapa da história do conjunto é importante, entre outras coisas, por causa disso. Seja na qualidade artística, seja na profissionalização administrativa, a Osesp virou modelo – e os percalços pelos quais passa, assim como as respostas a eles, vão além da vida da orquestra e podem ser pensados como laboratório para outras iniciativas culturais. Por tudo isso, a discussão, mesmo que apaixonada, precisa ser feita de maneira tranquila e objetiva. Não há, aqui, heróis ou vilões – o ser humano costuma ser bem mais complicado do que isso. Aceitar os equívocos do maestro Neschling não é diminuir a importância excepcional de seu trabalho; da mesma forma, entender a necessidade, por parte do conselho da Fundação Osesp, de redefinir após sua gestão a figura do diretor artístico e regente-titular, não pode significar aceitar um maestro menos envolvido com o grupo e sua sobrevivência. No final das contas, na cabeça de todos precisa estar a noção de que a Osesp deve ser uma instituição maior e mais forte que aqueles que por ela passam.

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