Novos (des)caminhos para o Teatro Municipal de São Paulo

Persiste a ideia de que o melhor para um teatro de óperas, concertos e balé é deixar de apresentar óperas, concertos e balés. Até quando?

João Luiz Sampaio

04 de fevereiro de 2019 | 16h59

Com a saída de André Sturm da Secretaria Municipal de Cultura e a chegada do novo secretário Ale Youssef foram duas as novidades neste começo do ano para o Teatro Municipal de São Paulo. As denúncias contra o Instituto Odeon foram suspensas, para evitar a paralisação do espaço no dia 9 de fevereiro; e, em entrevistas, Youssef definiu o teatro como um espaço multiuso. Uma medida concreta, uma ideia, ambas incapazes de dar conta da complexidade do momento vivido pelo Municipal.

 

A permanência do Odeon respondeu a uma questão prática. Com a decisão de Sturm de romper o contrato de gestão com o instituto, o processo previa um período de sessenta dias para a troca de comando no teatro. Mas o edital lançado para substituir o Odeon havia sido suspenso pelo Tribunal de Contas do Município. E, sem uma nova entidade vencedora, o final do prazo de 60 dias significaria que todos os artistas e prestadores de serviço da casa estariam sem contrato no dia 9 de fevereiro – a cinco dias da estreia da primeira (e até agora única anunciada) produção da casa, “O Barbeiro de Sevilha”.

Problema emergencial resolvido, surgem então outras questões – para as quais a nova secretaria ainda não deu respostas. O Odeon, na ocasião do anúncio de sua permanência por tempo indeterminado, falou em repactuação com a prefeitura. Mas a prefeitura, ao falar, na verdade silenciou. O Odeon continuará em seu contrato de cinco anos previamente estabelecido? Esse contrato será refeito? Uma vez retirada a suspensão pelo Tribunal de Contas, terá prosseguimento por meio do mesmo edital a escolha de uma nova gestora? Um novo processo será aberto? Em quais termos?

Claro que parte do problema, neste caso, é anterior e tem a ver com o modelo de gestão adotado, no qual a Fundação Theatro Municipal é intermediária do contrato entre secretaria e gestora, causando todo tipo de confusão hierárquica e burocrática que faz do Municipal um pesadelo administrativo e artístico – em especial quando o secretário assume aberta ingerência no dia a dia do teatro (sobre esse assunto, leia esclarecedor texto de Nelson Rubens Kunze).

O curioso é que parece ser um consenso a extinção da fundação, que, por sinal, na briga entre Sturm e o Odeon foi pouco mais do que garota de recados do secretário, abrindo mão de seu sentido conceitual de defender o teatro de ingerências políticas e estabelecer um objetivo artístico claro. Ela foi defendida na gestão Fernando Haddad, pelo próprio Sturm e, segundo informações de bastidores, parece uma ideia razoável também para a atual secretaria. Extingui-la, no entanto, significa mexer em um vespeiro político que ninguém parece estar disposto a enfrentar, criando apenas remendos que, aliás, desde 2013 têm explodido com frequência e rapidez didáticas.

Em meio a tudo isso, o secretário Ale Youssef afirmou em entrevista na última semana que entende o Municipal São Paulo como um espaço multicultural e que ele deve ter um papel importante na comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna, em 2022. Não há o que discutir: como palco da Semana, seria curioso ver o teatro excluído da festa e da reflexão que ela pode gerar. Mas, no que diz respeito ao Municipal como espaço multiuso ou multicultural, a questão é mais delicada.

A começar pelo fato de que o Municipal já é um espaço multiuso. Em sua estrutura, há uma orquestra profissional e diversos grupos jovens; um quarteto de cordas; dois grupos corais; uma companhia de dança; uma escola de música; uma escola de bailado. A multiplicidade que esses conjuntos, em especial quando dialogam entre si, pode gerar é imensa, em temporadas de câmara, sinfônicas, de ópera e de balé. Acontece que, em meio ao caos administrativo, o Municipal se furtou de uma discussão fundamental: como um teatro com essa riqueza artística em potencial pode conversar com a cidade e com outras formas de manifestação artística? Como pode reinventar sua vocação como palco de ópera, de concertos e de balé, em diálogo também com a vocação educacional que está em seu DNA e que pode ser aceita como trunfo?

Não é apenas o Teatro Municipal que precisa enfrentar esses questionamentos. Em Nova York, o Metropolitan Opera House está desenvolvendo projetos que toquem em questões como diversidade, representatividade, a arte contemporânea, a busca por novas plateias; a Ópera de Paris tem feito o mesmo, com resultados interessantes. E é natural que, a se contemplar o funcionamento e o sentido de um teatro de ópera, são muitas as respostas possíveis. Mas, se ao falar no Municipal como espaço “multicultural” a secretaria quer dizer que ele não pode ser destinado “apenas” à ópera, ao balé e aos concertos, então está recorrendo – e não é a primeira a fazer isso – à resposta mais fácil e simplista.

Não se discute a importância de atrair um público maior ao Municipal (ainda que ele não seja pequeno, como gosta de supor o senso comum), ou de fazer com que o teatro participe de maneira ativa da vida cultural da cidade e do país. Mas ele pode fazer tudo isso assumindo sua vocação histórica, o que no entanto exige abraçar o desafio de atualizar essa vocação e atualizá-la à luz de novos tempos, mostrando o quão relevante a ópera, a música sinfônica e o balé podem ser para o debate contemporâneo – em um processo em que, claro, elas podem conversar com outras artes.

Talvez seja o caminho mais difícil. E daí?

Tendências: