No Rio, com Mozart

João Luiz Sampaio

04 de junho de 2009 | 10h38

A maratona começou. Até domingo, serão 38 concertos aqui no Rio dedicados à obra de Mozart, dentro da programação da Folle Journée. Ontem à noite, na Sala Cecília Meireles, a orquestra do festival, comandada pelo maestro Roberto Tibiriçá, deu a largada com o “Concerto para Piano nº 20” (solos de Sonia Goulart) e a “Sinfonia nº 40”. São dois Mozarts da maturidade, se é que podemos chamá-los assim, talvez seja melhor nos referirmos a eles como peças dos últimos anos de vida do compositor. Há algo de introspectivo nessas peças, em especial na sinfonia. O grande crítico Charles Rosen, no livro “Classical Style” refere-se a ela como uma obra de “paixão, violência e dor”, percepção bastante distinta da de Schumann, por exemplo, para quem a sinfonia era exemplo de “leveza e graciosidade”. Eu fico com Rosen. E a leitura oferecida por Tibiriçá parece seguir no mesmo caminho, atenta às dinâmicas, ao equilíbrio entre naipes, formando um arco reflexivo, de interpretação.

Norbert Elias, em seu “Sociologia de um Gênio”, escreve que Mozart “era uma pessoa que sentia uma insaciável necessidade de amor, tanto físico como emocional”. “Um dos segredos de sua vida era provavelmente a sensação que tinha, desde a mais tenra idade, de que ninguém o amava. Talvez muito de sua música tenha sido uma procura constante de afeto, a busca de estima por parte de um homem que, desde a infância, nunca esteve seguro de merecer o amor daqueles que significavam tanto para ele e que, em alguns aspectos, sentiu pouco amor por si mesmo. Embora a palavra tragédia soe aqui um tanto banal e grandiosa, pode-se afirmar, com alguma justiça, que o lado trágico da existência de Mozart deve-se ao fato de que ele, desde jovem, em sua luta por conseguir o amor das pessoas, não se sentiu amado por ninguém, nem mesmo por si próprio.” Daí, continua Elias, a solidão e a introspecção que, no fim da vida, acompanham suas principais obras.

Mozart carrega uma personalidade tão forte, tão marcante, que nos faz reconhecer sua música em segundos; ao mesmo tempo, com o passar dos séculos, ele foi se transformando em nosso imaginário em tantos homens, motivações, sentimentos… Talvez a marca do gênio seja mesmo essa capacidade de se misturar com a história da arte e assumir tantas formas no imaginário coletivo. Gênio precoce, predestinado, homem solitário, alma romântica presa em formas clássicas… Não deixa de ser significativo que, naquilo que Schumann viu graciosidade, hoje vejamos sofrimento e dor. Voltemos, então, à sua música. Faltam 36 concertos.

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