No Rio, com Beethoven e Haydn

João Luiz Sampaio

08 de junho de 2009 | 00h50

Acordei hoje com uma saudades danada do adagio do Concerto para Piano e Orquestra n.º 5, “Imperador”, de Beethoven, de forma que corri até o iPod e passei a manhã com a peça, primeiro com Helene Grimaud e depois com Alfred Brendel, no táxi, o Aterro do Flamengo nublado como paisagem e, logo depois, o centro da cidade, o Paço Imperial, a rua Primeiro de Março. Estava a caminho da Candelária – dei uma pausa no último dia de concertos da Folle Journée e fui conferir o concerto da OSB na igreja. Haydn. “A Criação”. Haydn, Mozart, Beethoven, muito doido, afinal, são tantas as relações musicais entre os três autores, três pilares de uma tradição que chega até nossos dias intocada, ou melhor, reinventada a cada momento, a cada dia, sem perder uma só nota de seu significado com o passar do tempo. Enfim, sobre “A Criação”, estava bem a orquestra e fiquei impressionado com a voz do jovem tenor paraense Atala Ayan, que vem ganhando nome no canto lírico do País – atenção, no entanto: a beleza do material é tão grande quanto a chance de estragá-lo com excesso de trabalho e escolha equivocada de repertório. De resto, foi especial ouvir a peça, em seu misto de liturgia e teatro sobre os sete dias em que Deus criou o mundo, na igreja. O cenário, claro, associa-se direto com o texto e a música de Haydn – ao mesmo tempo, porém, a igreja, tão monumental em sua construção, parece tão distante e fria perante o poder de criação de um gênio como Haydn. “A Criação”, no fundo, me parece ela mesma uma catedral mais interessante.

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